Selecionados

LAÇOS, ELOS E ABRAÇOS EM MARCEL PROUST

Não chegamos a mudar as coisas conforme nosso desejo, mas, pouco a pouco, é nosso desejo que muda. Os laços entre as pessoas e nós, só existem em nosso pensamento. Ao debilitar-se, a memória os afrouxa, e, malgrado a ilsusão com que gostaríamos de nos enganar, e com a qual, por amor, por amizade, por respeito humano, por dever, enganamos os outros, nós existimos sozinhos. O homem é uma criatura que não pode sair de si, e, dizendo o contrário, mente.

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A FRUSTRAÇÃO DA IDEIA

Carlos Rodolfo Stopa

[ Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber. Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento...de "volver a los 17" - Violeta Parra]

Parece-me óbvio:
não a ti eu amo…
mas amo a ideia de ti
que trago em mim,
essa ideia invasora
que me toma o ser,
e que me inunda de carinho!

Tua missão?! Parece simples:
coincide contigo mesma!
Por isto, constantemente,
mas sem arvorar esperanças,
eu te lanço contra ti mesma,
e, eu sei, corro os perigos da reflexão…

Sentimento e frustração… por que,
agorinha, estas palavras saltam à luz?
Será que, num jogo de espelhos,
há sempre o recíproco medo que
as nossas ideias jamais coincidam?
Mas eu concordo: o sentimento
pode mais, bem mais que o saber!

Ah, como posso pensar estas coisas
que penso, assim…à luz do dia!
Salva-me de mim apenas o fato
de que eu não tenho futuro,
e já olho o meu jardim sumir…
sumir na neblina do meu entardecer…

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POEMA DE LÁZARA PAPANDREA

Quando eu morrer, sova a minha carne com os poemas que deixei passar intactos pela sandice dos dias e estenda tuas mãos de cãs e cactos enrolados sobre as crinas destes medos e silêncios que andei a tatuar por tua pele.

Quando eu morrer, cubra-me com os poemas que não me couberam e sempre me interrogaram.
Cerca-os com as perguntas que não formulei. Com as respostas que não tive. Com a audácia da flor livre que não se abriu para mim, mesmo sendo abril no jardim de todas as memórias!

Quando eu morrer, não esqueças de recontar as estórias enrodilhadas aos silêncios destes poemas que não me quiseram. E do resto, deixa-me partires sã, porque todo o resto eu lavarei em minhas entranhas com o eco das palavras que sobrevoam os dias de agora como se pássaras fossem.

Quando eu morrer, crava nos teus ombros a angústia que foi minha, mas, crava doce, quem sabe, os versos que não pude encantar, te visitem!

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PERDOA-ME – Raquel Lar

Perdoa-me por amar-te
na liberdade dos sonhos…
Por aceitar-te de qualquer jeito
independente dos teus desenganos…
Por desejar-te além da carne
por afogar teus medos e anseios
por não saber-te adulto e maduro,
mas um menino que resgata
os brinquedos.

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É FÁCIL TROCAR AS PALAVRAS – Fernando Pessoa

É fácil trocar as palavras,
difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
difícil é conter sua torrente…

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[ imagem de Vitor Moinhos - Mulher com pássaro]

SAUDADE É SOLIDÃO – Pablo Neruda

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado
que ainda não passou,
é recusar um presente
que nos machuca,
é não ver um futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe
o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte
na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo
deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudade,
passar pela vida e não viver.
O maior sofrimento é nunca
ter sofrido.

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MUSA AMADA – Helena Luna (http://www.recantodasletras.com.br)

Os brincos esqueceste, distraída,
depois que o amor se fez, apaixonado,
porque te apressaste na saída,
deixando os meus olhos deslumbrados.

Meu ser, agora, triste, desolado,
lamenta a tua ausência – uma ferida.
Os brincos esqueceste, distraída,
depois que o amor se fez, apaixonado.

Tu és a musa amada, a mais querida,
aquela com quem eu sonho acordado,
razão essencial da minha vida,
o bem maior, destino – o meu fado.
Os brincos… esqueceste, distraída.

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[ Pablo Neruda e Matilde em Isla Negra]

OS HOMENS ( A ROSA SEPARADA) – Pablo Neruda

Somos torpes os transeuntes, nos atropelamos de cotovelos,
de pés, de calças, de maletas,
descemos do trem, do jato, do navio, descemos
com roupas amassadas e chapéus funestos.
Somos culpáveis, somos pecadores,
chegamos de hotéis estagnados ou da paz industrial,
esta é talvez a última camisa limpa,
perdemos a gravata,
mas ainda assim, deslocados, solenes,
filhos da puta considerados nos melhores ambientes,
ou simples taciturnos que não devemos nada a ninguém,
somos os mesmos e o mesmo diante do tempo,
diante da solidão: os pobres homens
que ganharam a vida e a morte trabalhando
de maneira normal ou burocrática,
sentados ou amontoados nas estações do metrô,
nos barcos, nas minas, nos centros de estudo, nos cárceres,
nas universidades, nas fábricas de cerveja,
(debaixo da roupa a mesma pele sedenta
e o cabelo, o mesmo cabelo, repartido em cores).

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TEMPORIZEMOS – Murilo Mendes

As têmporas de Antonieta
As têmporas da begônia
As têmporas da romã
As têmporas da maçã
As têmporas da hortelã
As pitangas temporãs
O tempo temporão
O tempo será
As têmporas do tempo
O temporal do tempo
Os tambores do tempo
As mulheres temporãs
O tempo atual, superado por um tempo
de outra dimensão
e que não é aquele tempo.
Temporizemos.

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ARCHOTE VIVO – Charles Baudelaire

Andam diante de mim teus olhos cristalinos,
A que um anjo cedeu poder magnetizante:
Andam: são meus irmãos estes irmãos divinos,
Jogando em meu olhar seus fogos de diamante;

Salvando-se de risco e de pecado ignavo,
Pela estrada do Belo eles impõem meus rastros.
Olhos meus servos são, deles eu sou escravo!
Obedece o meu ser a estes vívidos astros.

Doces olhos, brilhais desta flama hierática
Dos círios a queimar em pleno dia, o sol
Vermelho não apaga esta chama fantástica;

E se louvam a morte cantais o arrebol.
Pois ides a cantar minha ressurreição,
Astros que não têm sol que lhes murche o clarão!

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SE TU VIESSES VER-ME HOJE À TARDINHA – Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus barcos…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

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POEMA – Lázara Papandrea

Houvesse em nós mais poesia
amanheceríamos vento um do outro
Ventaríamos em uníssono flores de maio!

Houvesse em nós mais silêncios
a calada palavra, de anel no dedo,
beijaria maritalmente os nossos sonhos,
por puro compromisso com teus olhos!

Houvesse em nós menos entardeceres
e medo nenhum
ainda assim faltaria o sol das nove horas em minha boca
e eu não saberia lidar com o tempo de ser feliz!

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AS MANHÃS BRINCAM… – PLínio de Aguiar ( Postado por Ezio Bazzo no Facebook)

As manhãs brincam e acenam folhas,
Fazem brisas, tornam rosas mais flores.
Fabricam sombras com o sol no dorso.

Eventualmente são moldura de sonata
Saída de casa distinta em violino
Obsessivo de silêncio. Às vezes
Alegram-se mais, exibem nuvens animais
Imitando delírio dos meninos mirando-as.

As manhãs brincam até quando velhos choram.
E agradecem a vida. Acinzentados, olhos
Veem cadeira, copo, prato, remédios, o teto e
A enfermeira à beira da cama, restos de Deus.

As manhãs também se sacodem de riso
Nos latidos de cães presos em barracos
Ou mansões, passos na calçada molhada.
No rangido do portão da igreja, fechando-se.
No assobio do menino, na menina voltando.

Plínio de Aguiar
Cipó, Bahia, junho de 2011

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DIZERES DE Herberto Helder ( Postado por Carlos Rodolfo Stopa no Facebook)

“não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.”
***
Ou:

“A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores líricas.
… … …
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas das palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira.
… … …
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.”

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COMO NASCEM AS MANHÃS – Flora Figueiredo

O fundo dos olhos da noite
guarda silêncios.
Esconde na retina
a menina que corre descalça em campo aberto.
Pálpebras cerradas, a noite emudece.
A menina com medo
faz um furo no escuro com a ponta do dedo.
Cai um pingo de luz.
Amanhece.

AMARRAS – Flora Figeuiredo

A Lembrança é um barbante.
Uma ponta amarrada no começo da história,
outra, em nosso tornozelo.
Se o fio estica muito, mal dá para continuar.
É a linha da Memória que vai ficando puída,
a da Lembrança, não.
Feita de fibra grossa,
não afrouxa até que um anjo venha desatá-la
e a transforme numa corredeira de estrelas.
E quanto mais a corredeira for comprida,
tanto mais rica há de ter sido a vida.

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[Imagem de Inaceo Naega]

O TEMPO – Mário Quintana

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é NATAL…
Quando se vê, já TERMINOU O ANO…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
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G

TRADUZIR-SE  – Ferreira  Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo.
Outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão,
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta,
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem,
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra part
- que é uma questão
de vida ou morte
- será arte?
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ERRANDO NO MUSEU PICASSO – Affonso Romano de Sat’Anna

Picasso

erra

quando pinta

e  erra

quando ama.

 

Mas quando erra,

erra

violenta e

generosamente,

 

erra

com exuberante

arrogância,

erra

como o touro erra

seu papel de vítima,

sangrando

quem, por muito amar, fere

e sai ovacionado

com banderilhas na carne.

 

Pintor do excesso

e exuberância,

Picasso

é extravagância.

Ele erra,

mas nele,

o  erro

mais que o erro

– é errância.

 

 

 

 

6 Responses to “Selecionados”

  1. Leonora Says:
    December 28th, 2011 at 18:23

    Que é isto? Que seleção mais legal!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  2. Ana Miranda Says:
    January 19th, 2012 at 22:21

    É nessas horas que dá o maior orgulho de ser brasileira!!!!

    Incrivelmente belas essas poesias!!!

    “Traduzir-se” do Ferreira Gullar é simplesmente maravilhosa, não que as outras poesias também não o sejam, mas essa é perfeita!!!

    Parabéns pela seleção, faltou uma poesia sua, né não?

  3. lazara papandrea Says:
    January 20th, 2012 at 18:14

    Eita! isso está bonito demais!

  4. Mario Lenz Says:
    January 22nd, 2012 at 17:49

    Isto é um jardim de prazeres. Abraços, beijos do Mário!

  5. Ana Miranda Says:
    January 22nd, 2012 at 21:22

    Está virando um vício vi ler suas ” Poesias Selecionadas”.

    A Layara arrasa, não?

    Obrigada pela deliciosa seleção.

  6. helenaluna Says:
    January 31st, 2012 at 14:04

    Tua generosidade é enorme minha querida amiga, quem sou eu, uma mera rabiscadora, para figurar entre essas brilahntes figuras da poesia? Obrigada, mesmo. Meu abraço.

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