Resenhas

RESENHA DO LIVRO: GRUEN, Sara. Água para elefantes. São Paulo: Arqueiro, 2007.

Seduzida pelo mundo do circo, Sara Gruen desenvolve neste livro um estilo narrativo que é uma armadilha para capturar o leitor. O amor e a compreensão acerca do comportamento animal é sentido do princípio ao fim. Para abrir a narrativa ela escolheu o seguinte pensamento: ” Queria dizer o que disse, e disse o que queria dizer…O elefante é cem por cento fiel”. Frase que denuncia a dose de realismo encontrada no romance, capaz de nos colocar inteiramente dentro da história.
O livro faz o percurso da vida de um homem, um homem comum que sofre as ações do viver sem abandonar sua integridade por maiores que tenham sido suas humilhações. Vive de forma digna sua dor, coragem, sua inquietude e perplexidade. Um homem que nem sabe o que esperar dos outros ou de si mesmo mas que o tempo todo está vivo, pronto, presente, e constrói seu destino de forma lúcida sob as bases de seus valores mais profundos.
Exilado numa clínica de repouso ou asilo, aos 93 anos, diz: ” Tenho 93 anos ou 96. Uma coisa ou outra…Estou estacionado no corredor com meu andador… Talvez ainda haja alguma vida neste cachorro velho.” No asilo, nunca fala sobre seu passado mas nos mostra seu tédio cotidiano, sua solidão que aciona sua memória para nos contar sua inusitada história. No pensamento, volta no tempo: ” Tenho 23 anos… Pelo que sei, sou o mais velho homem virgem da face da terra”.
Suas lembranças nos revelam um mundo a parte, o mundo do circo, com suas leis rigorosas e irracionais, suas cores vibrantes, a sujeira dos bastidores, seus personagens mágicos e cruéis e seus animais quase humanos. Estas lembranças abrigam paixões, encanto, dor e ódio. Nesta atmosfera ele conhece o amor quando se apaixona por Marlena, a domadora dos cavalos. Juntos, adotam Rosie, “a elefanta mais burra do mundo”, que deu origem a esta história.

 

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LIVRO:  BAZZO, Ezio Flavio. A lábia encantadora de João do Rio. Brasília: Plagiattus, 2003.

O livro de Ezio Bazzo, “ A lábia encantadora de João do Rio” foi arquitetado com todo o cuidado para se tornar uma forma de revelação do mundo das ruas impregnado na alma de João do Rio.
João do Rio, este escritor quase maldito, mergulhou “deliberadamente nas sombras cúmplices da madrugada urbana” e lá, foi buscar os elementos essenciais para afirmar que existe um mundo paralelo bem diante de nossas barbas e que dele não nos damos conta, e “em Benares ou em Amsterdam, em Londres ou em Buenos Aires, sob os céos mais diversos, a rua é a agasalhadora da miséria”… ainda.

Contém 46 fotos feitas por Bazzo de personagens das ruas do mundo (Paris, Montreal, Brasília, Istambul, Katmandu, Atenas, Córdoba, Roma, Havana, Jerusalém, entre outras cidades), fotos que entremeiam os textos de João do Rio em perfeita consonância, e revelam a situação das pessoas que habitam as ruas, a existência de uma cultura singular e assustadora, densamente povoada e sedimentada em bases seculares do abandono.

O livro é o retrato deste mundo a parte e à flor dos olhos de todos, cegos, que ainda assim, lado a lado com os alijados da vida social, não conseguem ver esta realidade torta, desprezada à própria sorte.

Desde que João do Rio começou a falar sobre este estado de existir, o existir na rua, e o descreveu no calor do seu sentir (final do século XIX) até hoje, nada mudou. Estão aí as ruas e os seres vivos-mortos que as habitam. As fotos de Bazzo comprovam este fato e ainda, por ironia, são atualíssimas, como se tivessem sido tiradas ontem.

Em seus textos, tal como Bazzo, João do Rio desce ao inferno para nos mostrar seus meandros, para nos falar deste anjo decaído que somos nós. É espantoso ler e entender que eles de fato, estiveram lá!

[ O livro pode ser adquirido na Livraria das Absurdidades, no blog do autor: http://eziobazzo@blogspot.com]

 

 

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LIVRO:  JECUPÉ, Kaka  Wera.  A terra dos mil povos: a história indígena do Brasil contad por um índio. São Paulo: Fundação Peirópolis, 1998.
Este livro encantador de Kaka Werá Jecupé, editado pela Fundação Peirópolis e muito bem ilustrado por Taisa Borges, explora de forma inusitada os fundamentos da cultura dos povos indígenas brasileiros.

Para o autor, índio Txukarramãe (guerreiro sem armas), profundo conhecedor das tradições de seu povo e da cultura ocidental – Tupi, Guarani, Tupinambá, Tapuia, Xavante, Kamayurá, Yanomami, Kadiweu, Txukarramãe, Kaigang, Krahô, Kalapalo, Yawalapiti – são nomes que pulsam na terra chamada Brasil. Pergunta: – Seriam raças? Nações? Etnias? E respondendo, diz: – É a memória viva do tempo em que o ser caminhava com a floresta, os rios, as estrelas e as montanhas no coração e exercia o fluir de si.

Ser índio na visão de um índio é completamente diferente de ser índio na visão dos chamados homens brancos. Por isso Jecupé, pode afirmar sem medo de errar que ser índio é um estado de espírito, um estado de espírito que habitava o Brasil e as Américas antes mesmo do tempo existir. Um ser que encarna seu espírito à matéria a partir de seu nome, uma vida que toma forma a partir da palavra, entendendo o viver como o espírito em movimento e o espírito como o silêncio-som, que possui um ritmo ou tom. E desta forma, estes tons se agrupavam por afinidades e assim formavam os clãs, que formavam as tribos, que habitavam as aldeias e constituíam as nações indígenas.

Segundo a tradição indígena brasileira é assim que as vidas acontecem: os índios mais antigos vão parindo os mais novos. O índio mais antigo do Brasil se auto denomina TUPY, que significa – som em pé. Em tudo na vida indígena brasileira, há musicalidade: pedra, planta, bicho, gente, céu e terra. Para existir harmonia de forma, grandes entidades da natureza chamadas “Nanderus” e a própria mãe terra são dirigidos por antepassados que se tornaram estrelas.

É da natureza do índio reverenciar os ancestrais e ele o faz em sinal de gratidão, pois para eles, foram os antepassados os artesãos modeladores do tecido chamado corpo, feito de fios perfeitos da terra, da água, fogo e ar, entrelaçando-se em sete níveis do “tom” – assentando o organismo, os sentimentos, as sensações e os pensamentos que comportam um ser, parte da grande música divina.

Para o índio, o ser ou a alma se denomina – corpo-som do ser e assim, intuíram uma técnica para afinar o corpo físico com a mente e o espírito através da música e da dança.

Há, para os povos indígenas, uma música que se expressa no corpo e que eles entendem como o espírito. O corpo por sua vez seria uma flauta que expressa o ser-luz-som-música (Avá) cuja morada é o coração.

Esta flauta (o corpo) é composta por 4 elementos: terra,fogo, água, ar. O ser deve “cantar sua música” no ritmo do coração da Mãe Terra, que dança no ritmo do coração do Pai Sol, que por sua vez, dança no ritmo do Amor Incondicional (Mboray) abençoando todas as estrelas (almas dos antepassados). Assim, na cultura dos índios brasileiros, cada um pode expressar a partir de seu corpo, a harmonia quando entra em sintonia com Tupã Papa Tenondé – o grande espírito que abraça a criação.

O mundo ancestral dos índios brasileiros se dividia em 4 partes:
Ambá Namandu – Morada dos espíritos anciães.
Ambá Jakairá – Morada dos espíritos brumas.
Ambá Jakairá – Morada dos espíritos fogos.
Ambá Tupã – Morada dos espíritos trovões.

Abaixo deste plano ancestral fica a Terra sem males ou Yvy Mara Ey – onde o ser habita por um momento após a morte terrena.

Segundo o autor, os primeiros povos brasileiros habitavam este solo entre 16.000 a 14.000 anos atrás. O clima era mais seco e mais frio, as florestas pequenas, o mar estava bem mais distante das praias atuais e boa parte do Brasil era formada por cerrados e caatingas.
Havia animais ditos pré-históricos, como mastodontes, preguiças-gigantes e cavalos, entre outros.

Humanos dividiam cavernas com os animais e pássaros, assim como escavavam a terra em círculos e cobriam a cavidade com palha, fazendo moradas-ventres, buracos para o sono, cobertura para o corpo-sonho.

Alguns fabricavam cerâmicas e esta arte os estimulava à raiz de si.
Nos estudos arqueológicos encontram-se também marcas escritas de povos de outros continentes – maias, astecas, incas, vikings, fenícios, milhares de anos antes do descobrimento do Brasil pelos portugueses.

Conforme Jecupê, até onde a arqueologia e a memória da cultura indígena brasileira permitiram chegar, seriam os seguintes povos, os primeiros habitantes desta terra:

- Povos da Lagoa Santa – conhecidos como puris, tinham a pele moreno-escura, cabelos enrolados e curtos, quase como os do povo negro.

- Povos da Flecha – habitavam os campos que ladeavam as florestas do sul do Brasil. Eram caçadores, usavam as boleadeiras (pedras amarradas em tiras de couro), o arco e a flecha. Também dominavam a arte da cavalaria. Eram caçadores e guerreiros e lutaram contra os espanhóis até serem extintos.

- Povos de Humaitá – habitavam o sudoeste do Brasil e desconheciam tanto o arco quanto a flecha e as boleadeiras. Usavam, no entanto, objetos lascados de pedra em forma de lua crescente, também conhecidos como bumerangues. Ocupavam as florestas e matas próximas aos grandes rios. Coletavam moluscos fluviais e frutos silvestres.

- Povos dos Sambaquis – comunidades constituídas de caçadores e coletores que detinham uma arte mais elaborada, expressas nos restos de suas cerâmicas com riqueza de símbolos e originalidade de formas. Povoavam o litoral brasileiro, do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul e viviam com recursos do mar, embora também caçassem pequenos animais e coletassem vegetais como coquinhos. Sua dieta principal era o peixe e os moluscos.
Por terem acumulado muitos restos de conchas e utilizarem este lugar para enterrar seus mortos, são conhecidos como povo dos Sambaquis.

- Povos agricultores – habitavam as margens do Rio Amazonas e plantavam corantes, plantas medicinais, palmeiras e principalmente a mandioca.

- Povos de Santarém ou Ananatuba – desenvolveram-se ao longo do rio Tapajós e na Ilha de Marajó. Deram origem a cultura marajoara.

- Povos do Itararé – viviam nos planaltos mais frios do sudeste brasileiro. Alimentavam-se de pinhão, plantavam milho e caçavam. Fabricavam casas subterrâneas, agrupadas em conjuntos. Algumas tinham 20 m. de diâmetro e se comunicavam por túneis formando grandes galerias. Desenvolveram uma cerâmica de cor cinza ou marrom, sem decoração.

- Povos Tupinambás e Tupy-guarani – romperam o Brasil de norte a sul e sua influência foi dominante do século XV ao XVII. Conhecidos como Filhos do Sol, Filhos da Lua e da Grande Mãe, utilizavam símbolos serpentinos, triângulos, animais como a rã, a coruja, a onça, o gavião, símbolos do feminino, da gravidez, da abundância, da prosperidade, assim como símbolo do masculino, do sol, da flecha, da lança, da ação. Eram viajantes, navegadores e guerreiros. Um grupo seguiu a Lua e teceu seu conhecimento para o interior de si. Desenvolveu a medicina do sonho, da reflexão, da filosofia, da arte. Buscaram aprender com o espírito da natureza os fundamentos da existência.
O outro grupo seguiu o Sol, desenvolveu a arte da conquista através da luta, da caça, da agricultura e espalharam-se pelo país.

Baseando suas afirmações em estudos arqueológicos, Kaka Werá Jecupé, relata que antes dos portugueses, por estas terras aportaram egípcios, cananeus, tártaros, babilônicos, fenícios, hititas e hebreus. A presença destes povos está registrada em pedras rúnicas milenares. Povos, como os astecas, os maias, os incas, também deixaram sua presença registrada no lado Amazônico do Brasil.

Neste livro interessante, Jecupé afirma que por volta de 1500, existiam 350 a 500 línguas faladas pelos índios brasileiros e 20 milhões de habitantes sendo a predominância Tupy bastante marcante.

Nesta época registra também que havia duas grandes divisões entre os povos indígenas: os Tupys e os Tapuias. Os Tapuias eram considerados bárbaros pelos Tupys. As línguas predominantes eram o tupi-guarani e o tupinambá.

No início desta civilização e de acordo com a memória cultural descrita pelo autor, todos os seres conversavam e viam os seres – espíritos da natureza, assim como os seres espíritos dos antepassados. Com o passar do tempo estes mundos se distanciaram e coube apenas a alguns especiais (os pajés) esta comunicação.

O sonho na tradição dos índios brasileiros é um momento sagrado em que o espírito está livre, em que ele realiza várias tarefas: purifica o corpo físico, sua morada; viaja até o mundo ancestral; voa pela aldeia; e às vezes vai até as margens do futuro, assim como caminha pelas trilhas do passado.

Sobre a origem do mundo e da humanidade, Jecupé nos brinda com quatro mitos de povos indígenas brasileiros completamente distintos em termos de língua e cultura: o povo Dessêna, que habitava a região amazônica no sentido do Peru; o povo Tupy-guarani que se expandiu a partir do centro amazônico e dominou o litoral brasileiro; o povo Xavante, que habita a região central brasileira (Mato Grosso e Goiás); e o povo Yanomami que habita o extremo norte da Amazônia em direção à Venezuela.

A origem do mundo e da humanidade segundo o povo Dessêna diz que as trevas cobriam tudo e sobre um quartzo branco apareceu uma mulher por si mesma que foi denominada Avó da terra. Ao pensar o mundo, esta mulher criou no quartzo branco um imenso balão que a envolveu. O balão era o mundo e ela o chamou de Maloca do universo. Criou então, os homens, avós do mundo. Eles eram trovões, conhecidos como homens do quartzo branco. Cada homem recebeu uma parte desta grande maloca.

Segundo o mito Xavante, dois homens foram colocados na terra pelo arco-íris e seus nomes foram dados por uma voz do alto. Eles não tinham companheiras e a voz do alto tendo se compadecido deles mandou-os tirar 4 pauzinhos e colocar dois de cada lado e riscarem um conjunto de cor vermelha e o outro de cor preta. Depois pediu aos homens que escolhessem segundo suas preferências. Os pauzinhos se transformaram em mulheres e assim começou a vida na terra.

No mito Yanomami, o grande pai gerou sua mulher e seus filhos do mistério das águas. Moravam nas cachoeiras e ganharam uma roça imensa para trabalharem, e se alimentarem. E assim, se multiplicaram.

Segundo o mito Tupy-guarani havia um criador cujo coração era o sol. Ele soprou seu cachimbo e fez a mãe terra. Chamou 7 anciães e pediu-lhes que criasse a humanidade. Os anciães navegaram numa canoa até a terra. Ali depositaram os desenhos-sementes de tudo o que viria a existir. O primeiro homem ao ser criado através da palavra desceu do céu através do arco-íris. Depois se transformou em sol e lua.

O legado indígena fala ao homem do nosso século sobre a prática de ser uno com a natureza interna de si ou do ser que nos habita.
O ser para os povos indígenas brasileiros, é uma interconexão de muitos. Cabe a cada um, discernir os seus muitos, os verdadeiros e os falsos. O que foi tecido pelos fios divinos e o que foi tecido pelos fios humanos. Cabe a cada um des-a-fiar, como diz Jecupê.

A tradição do Sol, da Lua e da Grande Mãe ensina que tudo se desdobrou de uma fonte única formando uma trama sagrada de relações e inter-relações de modo que tudo se conecta com tudo.

O pulsar de uma estrela a noite é o mesmo do coração. Homens, árvores, serras, rios e mares são um corpo com ações independentes.
E Jecupê, acrescenta: “quando os homens das cidades petrificadas largarem as armas do intelecto, esta contribuição será compreendida”.

Maria Helena Sleutjes

 

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LIVRO:   LELOUP, jean-Yves.   O romance de Maria Madalena: uma mulher incomparável.    Campinas: Verus, 2004.   161p.


Mesclando filosofia, história, teologia, ficção e muita poesia, Jean-Yves Leloup discorre neste livro, de forma extraordinária sobre o arquétipo feminino. Utilizando a figura enigmática e provocante de Maria Madalena (a “pecadora” que acompanhava Jesus, segundo a tradição cristã) e com base nas recentes descobertas dos evangelhos desenterrados em Nag Hammadi, o autor mergulha com rara beleza e sensibilidade, nos meandros mais delicados, mais fortes, mais inexplicáveis, mais dolorosos, mais doces e mais sagrados da alma da mulher de ontem, da mulher de hoje, da mulher de sempre.

A história se inicia através da contemplação na atualidade de um quadro onde se encontram as figuras de Maria Madalena e Jesus num Museu de Arte Bizantina, exatamente com a exclamação: “Este homem e esta mulher se amaram.” Este quadro, transformado em ícone para que a figura de uma jovem de 20 anos se mescle à figura de Maria Madalena, dá substância as idéias de Leloup, e vai permitir ao leitor viajar por uma outra história, igualmente salvadora, do poder acreditar que o Amor entre um homem e uma mulher, seja realmente possível.

Nos primeiros capítulos, Leloup descreve a formação de Maria Madalena, seu conhecimento mais abrangente da vida, seu amor pelos estudos, sua aproximação da cultura egípcia e grega e sobretudo, seus questionamentos sobre os costumes e padrões vigentes, evidentes nestas falas:
“– Não há outra realidade, além da realidade, mas será que a conhecemos melhor através dos sonhos ou da razão?… Será que ela se revela através do prazer ou da obrigação?…Consolo e prazer poderiam vir de outra pessoa ou de mim mesma?” Desnudando os sentimentos femininos de solidão através da voz de Sara, criada de Maria Madalena mas também sua instrutora, acrescenta: “Se lhe faltar a imaginação, você jamais verá corpos que cintilam, a luz azul que banha seu leito, o grande sorriso que transborda de seus olhos. Você jamais verá almas que se encontram… O amor assim como a grande realidade, não existe, cabe a você cria-lo. A vida não tem sentido, cabe a você dar-lhe um. Estamos na terra para isto, amamo-nos para que a vida não seja absurda e para que a morte não tenha a última palavra.”

Ainda no início do livro, Leloup nos brinda com a prece de Maria Madalena, uma prece que é pura poesia e que ela teria supostamente escrito para se defender dos deuses acusadores que fazem os homens nascerem velhos e culpados de todos os horrores do mundo:
“Meu Deus, tu és o Deus da primavera,
O que faz florescer, o que faz crescer.
Será que é mesmo necessário que sejamos “pequeninos”
Para que tu sejas todo-poderoso?
“Pobres pecadores”, para que tu sejas misericórdia?
Não é suficiente que estejamos nus, para que tu brilhes,
Que estejamos vazios, para que tu sejas tudo?
Tu não és um Deus que desconfia das mulheres,
Que canoniza os santos e queima as feiticeiras.
Tu és belo e amas a beleza
Eu orei a ti, com freqüência, Meu Deus
Para que me livrasses dos deuses que acusam
Que desprezam e fanatizam…
E tu me enviaste a primavera: a amendoeira
Floresceu.
Respirei o grande dia e a grande noite,
Reconheci teu sopro no jardim,
Tua brisa à beira do lago.
Tu me ensinaste que rezar mais
É respirar melhor.
Ainda não sei se és o Deus dos amantes,
Se fores aquele que ama em todos os que amam.
……………………………………………………………..
Amo-te sem te ver, sem te tocar
E, no entanto, sei que me deste
Olhos para ver e braços para abraçar.
Um dia talvez, em cores oceânicas,
Um homem virá
Para te dar um semblante
E abençoar a terra na oferenda de meu corpo;
Então, eu te amarei, meu Deus
Como as mulheres amam,
Como as crianças,
Como a tempestade
E nos tornaremos Um.”

Aprofundando constantemente os questionamentos em Maria Madalena, Leloup leva-a a perguntar se existe homem inteligente e belo pois os homens que ela encontrava seriam uma coisa ou outra…apaixonados imbecis ou inteligentes gelados e acrescentando diz: “estremeço mais de vergonha que de prazer” e ainda, ela se perguntaria: “- Quem colocou em mim este desejo lacerante de núpcias impossíveis?”.

Contemplando a questão do pecado ou a possessão da alma de Maria Madalena por sete demônios, Leloup afirma que existem sim, sete impedimentos à consciência e ao Amor, sete maneiras de gelar o sangue, de conter seus gestos, seu olhar, suas palavras, para não mais dar e, continuamente, desesperadamente, obstinar-se em apoderar, em reter o que se deve deixar escapar e abandonar.
Com a segurança que lhe é peculiar, Leloup demonstra que é necessário fazermos o inventário de nossos demônios, conhecer melhor o que nos aliena e nos possui, para melhor apreciar e agradecer o que nos liberta. Assim, Maria Madalena, burilando ainda mais o entendimento de si mesma, diz: “Nossa vida vale unicamente pelo olhar através do qual nos vemos… Liberdade… mas, para fazer exatamente o quê?” Maria Madalena nas palavras de Leloup, desejava se manter livre para o estudo, para o conhecimento e o esposo que ela buscava era o Logos – a informação criadora e assim o autor conseguindo olhar através das frestas de luz da alma feminina declara saber que secretamente esta mulher deseja uma inteligência que tenha um semblante, um corpo a quem ela pudesse realmente abraçar como a um homem…numa verdadeira aliança entre os sopros e os sonhos.
Descrevendo o encontro de Maria Madalena e Jesus, Leloup fala de um sublime encantamento que não se explica , onde a verdade de um passa a ser o semblante do outro, um semblante que não se pode ter, não se pode possuir, pode-se unicamente entregar-se a sua doçura e a exigência do seu olhar.

Para melhor demonstrar suas idéias acerca do Amor, Leloup coloca nas palavras que Jesus dirige à Maria Madalena, significados que afirmam que a única coisa necessária ao ser humano é que este aprenda a fazer o que fizer com Amor, e diz: “tudo o que fazemos sem Amor é tempo perdido, tudo o que fazemos com Amor, é eternidade encontrada” ou então, “Amar não é projetar-se no outro…Amar é deixar ser”. Continuando Leloup afirma que o amor é a morte da morte, aquilo que a compreende e supera e por fim, que o amor humano também pode ser um amor maior: “ – O que resta de um homem quando ele matou, em si, a alma do amor?…”.
E para concluir,Leloup afirma através deste romance que não existe ausência no amor – “o ausente não está no horizonte nem em seus sonhos, ele cola em sua pele” e assim pergunta:
“ – Conhecemos o ser amado pela ”psique“ ou pela ”pneuma“? E conclui, que conhecemos o ser amado pela soma do encontro (o nós), exatamente através da capacidade de perceber pois não podemos ser mobilizados apenas por aquilo que conseguimos ver mas pelo que percebemos e pelo que percebemos com o coração”.
- Seria o bem amado um homem, um deus, um ideal ou uma quimera?

Maroa Helena Sleutjes

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LIVRO:

BAZZO, E.F.   Mendigos: párias ou heróis da cultura? Brasília: LGE, 2010.    203p.

Ao que me parece este é o mais maldito de todos os livros do escritor Ezio Flavio Bazzo.  Este livro desafia a lei da gravidade e você tem que estar com pelo menos um pé no futuro para não virar de cabeça para baixo.  Mestre em criar perplexidades através de seus textos, Bazzo parece ter escolhido este tema com a intenção de demonstrar  a liberdade que o homem comum não tem,   nunca teve,  nem supõe existir ou  ousa almejar.

Este livro avançou no tempo, como todos os livros deste autor, de forma que sua compreensão exige uma visão mais abrangente do ser humano e da dualidade que o acompanha e que pode fazer dele um acolhido ou excluído, um astro ou um verme, um pária ou um herói e ainda assim, isto não é o que mais importa, o que genialmente o autor demonstra, pois ainda assim, o homem não deixa de ser o que é.

Bazzo inicia seu livro apresentado a nudez da mendicância  através de pensamentos de três grandes escritores: Cioran, escritor e filósofo romeno/francês que tinha como axioma a “inconveniência da existência”;  Jean Genet, o controvertido escritor francês autor de “O balcão”,  e o grande poeta alemão Holderlin, o poeta preferido de Heidegger,  cuja lírica sintetiza o espírito da Grécia Antiga.

Para transitar neste universo, o autor saiu fotografando os mendigos pelo mundo afora. Estas fotos que falam por si mesmas permeiam a narrativa juntamente do relato das viagens que empreendeu nesta jornada, episódios de sua passagem por várias cidades da Itália, Grécia, Egito, Israel, Turquia…  E fotografando os mendigos, vai aprofundando-se na trama de chegar o mais perto possível deste mundo que baniu as tradições, os dogmas, os ensinamentos, os códigos, a civilidade. Deste mundo que está à mercê de sua própria sorte ou é de vez em quando dizimado pelo poder constituído. Deste mundo grandemente rejeitado e por isto mesmo invisível e Bazzo é brilhante quando fala desta invisibilidade, onde seus adeptos parecem não existir, como fatos episódicos.

No capítulo chamado “Trechos Alheios”, o autor elenca autores consagrados e algumas de suas falas sobre o assunto.  Aqui, apenas uma pitada de alguns: Henry Miller, (Nascer na rua significa ser livre), Shakespeare no seu endiabrado Timon de Atenas (Tudo é obliquo, nada está a nível na nossa maldita natureza senão a infâmia manifesta); e o Mendigo voluntário de Nietzsche, do seu “Assim falou Zaratrusta”, obra que dilacera as crenças, os ídolos e analisa toda a gênese da culpa, além de tantos outros.

Ézio Bazzo encerra seu livro com 65 aforismos sobre o assunto.

Estes arranjos produzidos pelo autor para explorar o tema tornam o livro um ensaio incomum.  Coloque incomum nisto!

Mendigos, quem são?  Eles ou nós? Párias ou Heróis? Eles ou nós? Nunca saberemos.  Existir como um nada é algo a que não estamos acostumados nem em pensamento.  Então, o livro assusta e conquista, porque afinal, Bazzo está falando de nós – seres humanos – da forma mais escancarada que se pode imaginar.

Maria Helena Sleutjes

a Werá. A terra dos mil povos: história indígena brasileira contada por um índio.   2.ed.    São Paulo: Peirópolis, 1998.   115p.

RESENHA:

[As tradições indígenas merecem um outro olhar. Um olhar inteligente, sensível e competente, sintonizado com as transformações que vêm ocorrendo em todas as áreas do conhecimento. Não se trata mais de um olhar de conquista ou de ajuda, resultado de relações desequilibradas. É o olhar entre seres humanos buscando a harmonia entre seus saberes, respeitando suas diferenças e aceitando uma mútua contribuição. Este é o olhar inteligente do coração que nos encaminha para uma nova síntese. Regina de Fátima Migliori, diretora do Campus 21 da Fundação Peirópolis].

Este livro encantador de Kaka Werá Jecupé, editado pela Fundação Peirópolis e muito bem ilustrado por Taisa Borges, explora de forma inusitada os fundamentos da cultura dos povos indígenas brasileiros.

Para o autor, índio Txukarramãe (guerreiro sem armas), profundo conhecedor das tradições de seu povo e da cultura ocidental – Tupi, Guarani, Tupinambá, Tapuia, Xavante, Kamayurá, Yanomami, Kadiweu, Txukarramãe, Kaigang, Krahô, Kalapalo, Yawalapiti – são nomes que pulsam na terra chamada Brasil. Pergunta: – Seriam raças? Nações? Etnias? E respondendo, diz: – É a memória viva do tempo em que o ser caminhava com a floresta, os rios, as estrelas e as montanhas no coração e exercia o fluir de si.

Ser índio na visão de um índio é completamente diferente de ser índio na visão dos chamados homens brancos. Por isso Jecupé, pode afirmar sem medo de errar que ser índio é um estado de espírito, um estado de espírito que habitava o Brasil e as Américas antes mesmo do tempo existir. Um ser que encarna seu espírito à matéria a partir de seu nome, uma vida que toma forma a partir da palavra, entendendo o viver como o espírito em movimento e o espírito como o silêncio-som, que possui um ritmo ou tom. E desta forma, estes tons se agrupavam por afinidades e assim formavam os clãs, que formavam as tribos, que habitavam as aldeias e constituíam as nações indígenas.

Segundo a tradição indígena brasileira é assim que as vidas acontecem: os índios mais antigos vão parindo os mais novos. O índio mais antigo do Brasil se auto denomina TUPY, que significa – som em pé. Em tudo na vida indígena brasileira, há musicalidade: pedra, planta, bicho, gente, céu e terra. Para existir harmonia de forma, grandes entidades da natureza chamadas “Nanderus” e a própria mãe terra são dirigidos por antepassados que se tornaram estrelas.

É da natureza do índio reverenciar os ancestrais e ele o faz em sinal de gratidão, pois para eles, foram os antepassados os artesãos modeladores do tecido chamado corpo, feito de fios perfeitos da terra, da água, fogo e ar, entrelaçando-se em sete níveis do “tom” – assentando o organismo, os sentimentos, as sensações e os pensamentos que comportam um ser, parte da grande música divina.

Para o índio, o ser ou a alma se denomina – corpo-som do ser e assim, intuíram uma técnica para afinar o corpo físico com a mente e o espírito através da música e da dança.

Há, para os povos indígenas, uma música que se expressa no corpo e que eles entendem como o espírito. O corpo por sua vez seria uma flauta que expressa o ser-luz-som-música (Avá) cuja morada é o coração.

Esta flauta (o corpo) é composta por 4 elementos: terra,fogo, água, ar. O ser deve “cantar sua música” no ritmo do coração da Mãe Terra, que dança no ritmo do coração do Pai Sol, que por sua vez, dança no ritmo do Amor Incondicional (Mboray) abençoando todas as estrelas (almas dos antepassados). Assim, na cultura dos índios brasileiros, cada um pode expressar a partir de seu corpo, a harmonia quando entra em sintonia com Tupã Papa Tenondé – o grande espírito que abraça a criação.

O mundo ancestral dos índios brasileiros se dividia em 4 partes:

Ambá Namandu – Morada dos espíritos anciães.

Ambá Jakairá – Morada dos espíritos brumas.

Ambá Jakairá – Morada dos espíritos fogos.

Ambá Tupã – Morada dos espíritos trovões.

Abaixo deste plano ancestral fica a Terra sem males ou Yvy Mara Ey – onde o ser habita por um momento após a morte terrena.

Segundo o autor, os primeiros povos brasileiros habitavam este solo entre 16.000 a 14.000 anos atrás. O clima era mais seco e mais frio, as florestas pequenas, o mar estava bem mais distante das praias atuais e boa parte do Brasil era formada por cerrados e caatingas.

Havia animais ditos pré-históricos, como mastodontes, preguiças-gigantes e cavalos, entre outros.

Humanos dividiam cavernas com os animais e pássaros, assim como escavavam a terra em círculos e cobriam a cavidade com palha, fazendo moradas-ventres, buracos para o sono, cobertura para o corpo-sonho.

Alguns fabricavam cerâmicas e esta arte os estimulava à raiz de si.

Nos estudos arqueológicos encontram-se também marcas escritas de povos de outros continentes – maias, astecas, incas, vikings, fenícios, milhares de anos antes do descobrimento do Brasil pelos portugueses.

Conforme Jecupê, até onde a arqueologia e a memória da cultura indígena brasileira permitiram chegar, seriam os seguintes povos, os primeiros habitantes desta terra:

- Povos da Lagoa Santa – conhecidos como puris, tinham a pele moreno-escura, cabelos enrolados e curtos, quase como os do povo negro.

- Povos da Flecha – habitavam os campos que ladeavam as florestas do sul do Brasil. Eram caçadores, usavam as boleadeiras (pedras amarradas em tiras de couro), o arco e a flecha. Também dominavam a arte da cavalaria. Eram caçadores e guerreiros e lutaram contra os espanhóis até serem extintos.

- Povos de Humaitá – habitavam o sudoeste do Brasil e desconheciam tanto o arco quanto a flecha e as boleadeiras. Usavam, no entanto, objetos lascados de pedra em forma de lua crescente, também conhecidos como bumerangues. Ocupavam as florestas e matas próximas aos grandes rios. Coletavam moluscos fluviais e frutos silvestres.

- Povos dos Sambaquis – comunidades constituídas de caçadores e coletores que detinham uma arte mais elaborada, expressas nos restos de suas cerâmicas com riqueza de símbolos e originalidade de formas. Povoavam o litoral brasileiro, do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul e viviam com recursos do mar, embora também caçassem pequenos animais e coletassem vegetais como coquinhos. Sua dieta principal era o peixe e os moluscos.

Por terem acumulado muitos restos de conchas e utilizarem este lugar para enterrar seus mortos, são conhecidos como povo dos Sambaquis.

- Povos agricultores – habitavam as margens do Rio Amazonas e plantavam corantes, plantas medicinais, palmeiras e principalmente a mandioca.

- Povos de Santarém ou Ananatuba – desenvolveram-se ao longo do rio Tapajós e na Ilha de Marajó. Deram origem a cultura marajoara.

- Povos do Itararé – viviam nos planaltos mais frios do sudeste brasileiro. Alimentavam-se de pinhão, plantavam milho e caçavam. Fabricavam casas subterrâneas, agrupadas em conjuntos. Algumas tinham 20 m. de diâmetro e se comunicavam por túneis formando grandes galerias. Desenvolveram uma cerâmica de cor cinza ou marrom, sem decoração.

- Povos Tupinambás e Tupy-guarani – romperam o Brasil de norte a sul e sua influência foi dominante do século XV ao XVII. Conhecidos como Filhos do Sol, Filhos da Lua e da Grande Mãe, utilizavam símbolos serpentinos, triângulos, animais como a rã, a coruja, a onça, o gavião, símbolos do feminino, da gravidez, da abundância, da prosperidade, assim como símbolo do masculino, do sol, da flecha, da lança, da ação. Eram viajantes, navegadores e guerreiros. Um grupo seguiu a Lua e teceu seu conhecimento para o interior de si. Desenvolveu a medicina do sonho, da reflexão, da filosofia, da arte. Buscaram aprender com o espírito da natureza os fundamentos da existência.

O outro grupo seguiu o Sol, desenvolveu a arte da conquista através da luta, da caça, da agricultura e espalharam-se pelo país.

Baseando suas afirmações em estudos arqueológicos, Kaka Werá Jecupé, relata que antes dos portugueses, por estas terras aportaram egípcios, cananeus, tártaros, babilônicos, fenícios, hititas e hebreus. A presença destes povos está registrada em pedras rúnicas milenares. Povos, como os astecas, os maias, os incas, também deixaram sua presença registrada no lado Amazônico do Brasil.

Neste livro interessante, Jecupé afirma que por volta de 1500, existiam 350 a 500 línguas faladas pelos índios brasileiros e 20 milhões de habitantes sendo a predominância Tupy bastante marcante.

Nesta época registra também que havia duas grandes divisões entre os povos indígenas: os Tupys e os Tapuias. Os Tapuias eram considerados bárbaros pelos Tupys. As línguas predominantes eram o tupi-guarani e o tupinambá.

No início desta civilização e de acordo com a memória cultural descrita pelo autor, todos os seres conversavam e viam os seres – espíritos da natureza, assim como os seres espíritos dos antepassados. Com o passar do tempo estes mundos se distanciaram e coube apenas a alguns especiais (os pajés) esta comunicação.

O sonho na tradição dos índios brasileiros é um momento sagrado em que o espírito está livre, em que ele realiza várias tarefas: purifica o corpo físico, sua morada; viaja até o mundo ancestral; voa pela aldeia; e às vezes vai até as margens do futuro, assim como caminha pelas trilhas do passado.

Sobre a origem do mundo e da humanidade, Jecupé nos brinda com quatro mitos de povos indígenas brasileiros completamente distintos em termos de língua e cultura: o povo Dessêna, que habitava a região amazônica no sentido do Peru; o povo Tupy-guarani que se expandiu a partir do centro amazônico e dominou o litoral brasileiro; o povo Xavante, que habita a região central brasileira (Mato Grosso e Goiás); e o povo Yanomami que habita o extremo norte da Amazônia em direção à Venezuela.

A origem do mundo e da humanidade segundo o povo Dessêna diz que as trevas cobriam tudo e sobre um quartzo branco apareceu uma mulher por si mesma que foi denominada Avó da terra. Ao pensar o mundo, esta mulher criou no quartzo branco um imenso balão que a envolveu. O balão era o mundo e ela o chamou de Maloca do universo. Criou então, os homens, avós do mundo. Eles eram trovões, conhecidos como homens do quartzo branco. Cada homem recebeu uma parte desta grande maloca.

Segundo o mito Xavante, dois homens foram colocados na terra pelo arco-íris e seus nomes foram dados por uma voz do alto. Eles não tinham companheiras e a voz do alto tendo se compadecido deles mandou-os tirar 4 pauzinhos e colocar dois de cada lado e riscarem um conjunto de cor vermelha e o outro de cor preta. Depois pediu aos homens que escolhessem segundo suas preferências. Os pauzinhos se transformaram em mulheres e assim começou a vida na terra.

No mito Yanomami, o grande pai gerou sua mulher e seus filhos do mistério das águas. Moravam nas cachoeiras e ganharam uma roça imensa para trabalharem, e se alimentarem. E assim, se multiplicaram.

Segundo o mito Tupy-guarani havia um criador cujo coração era o sol. Ele soprou seu cachimbo e fez a mãe terra. Chamou 7 anciães e pediu-lhes que criasse a humanidade. Os anciães navegaram numa canoa até a terra. Ali depositaram os desenhos-sementes de tudo o que viria a existir. O primeiro homem ao ser criado através da palavra desceu do céu através do arco-íris. Depois se transformou em sol e lua.

O legado indígena fala ao homem do nosso século sobre a prática de ser uno com a natureza interna de si ou do ser que nos habita.

O ser para os povos indígenas brasileiros, é uma interconexão de muitos. Cabe a cada um, discernir os seus muitos, os verdadeiros e os falsos. O que foi tecido pelos fios divinos e o que foi tecido pelos fios humanos. Cabe a cada um des-a-fiar, como diz Jecupê.

A tradição do Sol, da Lua e da Grande Mãe ensina que tudo se desdobrou de uma fonte única formando uma trama sagrada de relações e inter-relações de modo que tudo se conecta com tudo.

O pulsar de uma estrela a noite é o mesmo do coração. Homens, árvores, serras, rios e mares são um corpo com ações independentes.

E Jecupê, acrescenta: “quando os homens das cidades petrificadas largarem as armas do intelecto, esta contribuição será compreendida”.

Maria   Helena Sleutjes

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