À UNIVERSIDADE RURAL

Encontro-me
Aqui
neste ponto parada
dividindo a estrada,

compondo pontes
entre o gramado e o luar,
entre o sol quente
e a estrada de areia,

entre o vento e a poeira,
encontro-me
Aqui.

A cada lado da estrada
os eucaliptos altivos
me contemplam.
Há quanto tempo?

Tenho minha palavra
burilida
por este vento lento,
minha essência modelada
Aqui.

Sopro
que nem mesmo se pertence,
cintilância
que brilha e evapora,

Tal como a Rural
mantida na memória
encontro-me
Aqui

ENCONTRO

ENCONTRO

maria helena sleutjes

[ Do livro: Exercício de olhar]

Perde-se na distância
o dia
que se recorta em tiras
no horizonte.
Todas as cores da vida
se afunilam
e a noite,
pouco a pouco,
tece se velho manto.
Meus olhos
de luar
te procuram.
Fugitivos,
teus olhos,
estrelas da noite,
no mar
mergulham.
Em mim,
o oceano brilha
indecifravelmente.
Estás por perto.

SEMENTES DO NADA

SEMENTES DO NADA

Maria helena sleutjes

A poesia sempre esteve por aqui.
Muitas vezes correndo solta pela casa branca e ensolarada.
Outras vezes, dormindo sobre almofadas floridas para abismar as pessoas.
A poesia, algumas vezes, percorria os cantinhos em busca de aventuras. Aventuras para os sentidos. Pendurava-se às cortinas, adornava as paredes nuas de cores e luas, de borboletas aladas e gárgulas, aquelas estranhas criaturas.
Outras vezes, a poesia subia no telhado vermelho e quente e ficava lá no alto, apanhando sol aos bocadinhos. Isto era um completo perigo, pois se a poesia cochilasse, despencava casa abaixo.
No telhado, a poesia gostava de se ornamentar de pássaros e de se enluarar de esperança para esperar o amanhã. O amanhã que não vinha…
Às vezes, a poesia sonhava, sonhava com um amor que não existia, que estava na quintessência de Marte. Quando desconfiava desta trapaça da criação, então se desiludia, enviuvava, se comprimia, arfava, ferida de morte, se contorcia, mas sempre ressuscitava.
Por vezes, a poesia se cansava de tudo e aí, se escondia atrás da porta, fazia uma grande sombra. Neste estado a poesia só confiava nas palavras. Era uma poesia lacaniana.
Mas, quando a poesia se refazia, gostava de fingir que era água para irrigar as lavandas e as hortênsias.
Quando se refazia, plantava sementes do nada e colhia LÍRIOS.

ELEIÇÃO PODE SER…

ELEIÇÃO PODE SER PROSA E POESIA

maria helena sleutjes

Uma eleição é prosa quando o candidato elabora sua plataforma, traça seus planos de metas e trabalha seus objetivos e ideais.
Mas ela se torna poesia quando estes objetivos têm por cerne o ser humano.

É prosa quando existe coerência entre o discurso e a história de vida do candidato.
É poesia quando esta história inspira.

É prosa quando o candidato demonstra que pode planejar, administrar, comandar para alcançar bons resultados.
É poesia quando além de tudo isso, demonstra sua capacidade de liderança para gerar crescimento com harmonia.

É prosa quando sabe escolher bons parceiros e seu grupo possui reais afinidades.
É poesia quando o eleitor percebe que estas partes reunidas formam um todo maior que a soma das partes (quando existe sinergia).

É prosa quando o candidato conhece os problemas e propõe soluções realistas.
É poesia quando o eleitor pode acreditar.

É prosa quando a candidatura tem por base a ética e o respeito aos outros candidatos na demonstração clara de idéias.
É poesia quando estas ideias contagiam.

É prosa quando o candidato consegue se comunicar e formar adeptos.
É poesia quando o eleitor se engaja na campanha e passa a defender sua plataforma.

É prosa quando o candidato demonstra conhecer o peso das responsabilidades que o esperam.
É poesia quando o amor pela causa que abraça se torna incontestavelmente evidente.

No Brasil, infelizmente, eleição nunca foi prosa nem poesia.

Do silêncio


[fractal de Cristine Guadelupe]

DO SILÊNCIO

maria helena sleutjes

[ Tu, forma silenciosa, provoca-nos além do pensamento, como a eternidade. Keats]

O silêncio, a insuportável réplica, é o vazio de todas as formas, de todas as vozes, de todo o movimento, é a morte.

O silêncio, a inefável espera, é o preenchimento de todas as formas, de todas as vozes, de todo o movimento, é a vida.

O silêncio é sem dúvida, a mais preenchedora e provocativa das vozes. Essencial para a arte, é a última conquista do artista, sua passagem para adentrar o santuário profundo e desconhecido de si mesmo.

Ouvir a voz do silêncio é compreender que a única direção verdadeira vem de dentro, do recôndito do ser.

O silêncio, esta zona de genuinidade e simplicidade do ser, é sempre alcançada pelos grandes artistas. Por isso o silêncio está sempre rondando a arte. Há na arte uma zona de silêncio semelhante a meditação, que é transcedência, uma espécie de melhoramento do ser. Quando se mergulha de fato no silêncio, é possível tocar a água, sentir o chão, perceber a vibração do firmamento, viver esta experiência sem estar totalmente presente. O ser alcança uma atenção dinâmica, uma percepção capaz de traduzir o sentir com absoluta clareza. É um movimento descondicionado da consciência individual.

E a opção do artista pelo silêncio, é na verdade, uma forma de trasngressão da realidade. Num mundo onde tudo é ruidoso, é esta uma rara transgressão, e uma transgressão que não o fará silencioso. Ao contrário. É aí que arte se legitima. A história da arte nada mais é que uma sucessão de transgressões bem sucedidas, de silêncios que tomaram formas capazes de mudar o estado de sentir dessas pessoas.

Mas o silêncio também atua como elemento de poder, uma posição de força, onde quem a exerce manipula e confunde o acompanhante. Esse então, torna-se o espaço da antiarte, aquela que substitui a intuição pelo acaso. E neste caso, o silêncio é negação, impedimento, anulação, morte sem possibilidade de renovação. E aí, não há arte.

No mar aberto do silêncio não há nada a aperceber, nenhum lugar a ir. O discurso do silêncio é flexível, modelável, adaptativo, sem forma definida mas abarcador de todas as ondas.

O silêncio é a consciência de que os mistérios da vida não podem ser aprisionados pelos orgãos dos sentidos e pela mente, não podem ser aprisionados entre o instante da vida e da morte e não podem ser enclausurados na rede do tempo.