SUBSTÂNCIA
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas
SUBSTÂNCIA
maria helena sleutjes
[ Não ser amado é falta de sorte, mas não amar é a própria infelicidade. Albert Camus]
Estavas ali
naquele ponto azulado
do querer
e não eras lembrança.
Eras fina aderência
sobre a sinuosidade
dos poros,
uma espécie de fragância
líquida,
um aroma d’água
derramado
sobre um mundo,
oco de cores
e de formas.
SOPRO
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas
SOPRO
maria helena sleutjes
Ah, este Deus que não sou
clama por ti
Anima
Core
Sapientiae.
Se não ouves
decreto luto às verbenas
em flor
incendeio os pássaros
em pleno voo
e recolho as cinzas.
Um show de vida!!
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas
Café com Poesia ( e Arte)- mar/2012
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Artigos
Depois de um “longo e tenebroso inverno”, eis-nos de novo reunidos.
Nossa reunião, enfim, aconteceu e foi muito legal! Contamos a história de um dos nossos poemas/textos. Matamos a saudade, demos nossos recados, sorrimos, rimos e cantamos parabéns para a Ana Miranda.

O que foi dito nesta reunião foi muito interessante pois falamos do momento de criação dos poemas/textos apresentados e este é um assunto muito rico.
Cada um trouxe um texto de sua autoria que tivesse um motivo maior para ter sido escrito, uma memória singular, um grande pretexto, uma história marcante. Deu samba…Deu muito samba.
Leila Barbosa, abriu a roda e nos trouxe um dos seus poemas:
POÉTICA DO VARAL
Leila Barbosa
Lavadeiras da palavra vão à fonte
de inspiração
Levam trouxas e trouxas
de frases sujas
contaminadas
pela cultura alheia
Levam trouxas e trouxas
de períodos sanguinolentos
violados pelo colonizador…
Correm em busca de água clara
que jorram de nossas raízes
puras, “desafixadas”
dessa água que limpa, alveja, ilumina
a literatura despertada
Esfregam o tempo e o espaço
o alfabeto envelhecido
Deixam de molho
“a língua fascista”
manchada
pela nódoa indelével
No coradouro, ao sol,
a retórica tradicional
reverbera agonizante
Torcem, retorcem, distorcem
dando um novo sentido
à linguagem desgastada
Batem na pedra surda
Cacofonias eufônicas
Ouvem “sapos tanoeiros”
estrídulos de grilos renitentes
Enxaguam no canto da fonte
versos quebrados
estrofes partidas
Cerzem os rasgões violentos
remendam partes descosidas
bordam caligraficamente
tecendo poemas de esperança
vão em frente sacudindo
os respingos persistentes
E o poema é estendido
aos passantes
Graciosamente ofertados,
os poemas no barbante
compõem o nosso varal!
Aqui Leila ( de blusa creme na foto) nos falou de um tempo onde a poesia era escrita em papéis e jogadas das janelas dos prédios em Juiz de Fora e depois recolhida e colocada em varais para ser lida pela população. Bons tempos!!!
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Na sequência, tivemos Eliana Mora ( de rosa na fotografia) que nos trouxe:
ACALANTO AOS PENSAMENTOS DE UM FINAL
Eliana Mora
Assim como uma luz
meio sem forma
está entrando em limiares de colunas cheias
salinas e desconcertantes
tu apareces
como se dali de onde cuspido foste
mensagem te viesse
de que nada poderias fazer para voltar
E rugas aparentas ter
como se de pele antiga fosse composta tua face
para que em processo
rápido audaz
quase um milagre
lisa
em pouco tempo ela acabasse por ficar
Como se a própria Vida num palco
se esticasse
E assim começa a esquisita caminhada
para o fim
e ainda que não possas enxergar em meio às névoas
elas se dissiparão
e tu alcançarás com certa nitidez
uma das verdades que em ti
vão esbarrar
E um dia
passando pelos dramas da tristeza
em meio ao burburinho de perder-te
ao aninhar-se como fosse ainda
aquele feto
em rima que não rende
perceberás
que nada além de um regresso estás vivendo
que tudo apenas
começa a retornar
E ao se transformar de novo na criança
em busca do calor e da umidade
já tens de novo rugas
mais idade
pelos brancos
num corpo bem franzino
que repousará em seu lugar
de vinda
e de destino
E saberás então
que era esse movimento
muito mais simples mesmo do que pregam
O arco emboscado
desta Vida
Contando a história do poema, Eliana nos diz que o poema nasceu após uma conversa bem longa com um repórter, em sua casa.
Estava ela no Rio de Janeiro, e até [de certa forma] se espantou com a ‘tese’ que estava a formular sobre a infância, a velhice, a identidade de ambos em tantos pontos de vista; as questões da vida, a nossa não-escolha em vir ao mundo, a questão do ‘final obrigatório’.
Mal ele saiu, nem pensou: sentou-se para escrever o “Acalanto…”. E diz: creio até ter mesmo passado a crer em tudo o que ficou escrito naquela tarde, naquele poema – e em mim.
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Ana Miranda, alegre e serelepe ( de short estampadinho na foto) nos deu este recado:
ESCREVER: ATO SOLITÁRIO?
Ana Miranda
Dizem que escrever é um ato solitário… Mas, aí, eu fico pensando, como pode ser solitário estar em companhia de si mesmo, dos próprios pensamentos, sentimentos e de seus personagens – reais ou fictícios – rondando seu !inconsciente consciente”?
Como considerar solitário um momento onde você pode deixar de ser você e ser outras pessoas, viver outros momentos, viajar outros espaços?
Não escrevo poesia, não tenho a sensibilidade que julgo ser necessária para que poetas externem sentimentos, que nem sempre são seus, de maneira ora delicada, ora “chocando” o leitor, mas sempre, mexndo, literalmente, com os sentimentos alheios.
Acho que deve ser incrível externar sentimentos – principalmente aquele sentimento de abandono, de dor, de amor, de saudade, de felicidade e tantos outros sentimentos abstratos – que mesmo não sendo do autor, ele consegue comunicar-se com o mundo de outras pessoas e tocar o íntimo de quem o lê.
Imagino que deve ser uma satisfação ímpar saber que, o que se escreve, reflete a dor ou a felicidade do outro…
E os cronistas? Pessoas que são capazes de transformar em palavras o cotidiano!
Temos também os romancistas, criadores de “pessoas”, mini deuses, criando situações, dando vida aos seus personagens. Heróis, vilões, comédia, tragédia, amor, ódio… Criadores de vida!!!
Talvez, por eu não ser uma escritora, não consiga ver a “solidão” no ato de escrever, pois, como leitora, sinto-me rodeada de “gentes”.
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Marisa Timponi ( de blusa cinza na foto) no fez o seguinte relato:
“Enquanto pensávamos e ou discutíamos sobre o processo de criação, nasceu-me este texto-poema:
NO ATO DA ESCRITA
A vontade de escrever
me predispõe o estado de poesia.
O texto flui,
o tema chega depois.
As palavras me atropelam:
“ferem-me,
matam-me”,
estrangulam-me.
Fico alerta,
à espera do próximo tornado,
pronta para o próximo desafio.
Em seguida, após a apresentação do poema da Lázara e do texto da Ângela, vieram-me estes versos:
Entre araras e siriemas,
o cheiro de café vem da cozinha.
Trovão no céu
anuncia despedida do calor
na tarde de poesia.
Depois, contei a gênese do livrinho de contos “Histórias de arrepiar”, do qual sou coautora, pela ZIT-Editora, Rio de Janeiro, que contém dois dos contos do meu “Varandas e quintais”, que escrevi exatamente quando perdi um bebê natimorto, já com seus seis meses… Um trecho do primeiro conto é de memórias, quando resgato a Margarida, nossa babá querida:
O LUGAR DA MARGARIDA
“Menina do vale da extensão da Serra da Mantiqueira, perto do entrecho da Serra dos Maurícios, de nome abusado (Borosco) já devia nter aprendido que gente de Piedade de Minas ou Santana do Deserto tem medo de alma penada.
Margarida não negava a raça. Estava marcada no corpo. Vento ruim a derrubara do banco, quando criança. Ficou torta e encolhida para sempre. Parece que diminui um bocadinho a cada ano vencido.
O esmalte vermelho em suas longas unhas endurecidas a formol, o cabelo teso e esticado a ferro quente, os dentes lixados a carvão e cinza do fogão de lenha e a certeza de que seria vencedora no programa de calouros de domingo, na rádio da cidade vizinha, faziam-na crescer na varanda alta do fundo do quintal. E era lá que conhecíamos as suas muitas histórias. Ela começava:
-Numa soleira de um bosque, não muito longe daqui, viviam Sinhazinha, sua mãe e sua cachorrinha.
A Sinhazinha era muito bonita e vivia protegida pela mãe.
Mas existia um moço muito estranho, de orelhas enormes e ponteagudas, cabeludo e amarelado que vivia assediando-a, querendo namorar com ela………..”
E por aí segue o conto, resgatando a mineiridade com seus causos, histórias de lobisomem, tal como a que nos foi contada por Margarida naquela manhã de segunda-feira, enquanto tomávamos café para correr para o quintal e encarapitarmos nos nossos pés-de-jabuticabas-casinhas-de-brincar….”
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Angela Nabuco, (ao lado de Marisa Timponi na foto acima) nos brindou com uma crônica que vai fazer parte de uma antologia a ser lançada ainda este ano no Rio de Janeiro. Sua crônica nos remeteu ao seu tempo de infância, a vida na fazenda, as pessoas, a natureza, os valores em seu mínimos e encantadores detalhes…Vamos aguardar a publicação da antologia para reler.
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Nesta mesma sintonia, Glória Barroso ( de blusa verde na fotografia ao lado da Ana Miranda) nos oferta seu poema A BROA, vejam:
A BROA
Glória Barroso
A Deise é que fazia uma broa que levava queijo.
Ele se separava em uma camada
no fundo da forma
cremoso
cheiroso.
Tenho certeza que era a danada da Deise que fazia essa broa.
Que além do queijo
levava farinha de trigo.
Broa moderna
fina
macia
servida em prato de porcelana.
Mas de primeiro
o queijo não entrava
Nem farinha.
Era uma broa simples
quitute de roça de comer em banco de pau
com pés de bandeirinha ou
feita pro café dos colonos
na pausa da tarde
da lida
da foice
do sol
sol forte
à sombra do angico
entre risos e casos
e cantos
toada comprida
Uma broa gostosa de fubá áspero
sempre igual.
amarelo
com pontinhos escuros.
Fubá de moinho d’água
que nascia ao som cantado da roda
no farfalhar das folhas ao redor
com o alarido d’água forte fresca
clara;
não em fábricas
de um amarelo industrial mas
ao som do assobio do vento nas folhas longas
estreitas
bem verdes e ásperas
da voz de quem o cuidava dizer “o milho já tá cacheando”
dos cabelos macios e ruivos da espiga
do sol que a tudo enchia de luz.
Ao fubá se misturavam ovos
casca dura
gema consistente
clara contida
a manteiga batida fresca
pontilhada de gotinhas d’água
que na verdade era menos usada que a banha.
Cravo-da-India – cabinho marrom com cabecinha de flor-
que infiltrava na massa seu cheiro e sabor
noz-moscada,
erva doce;
massa grossa,
rústica.
O espesso rio amarelo era derramado
na forma de canudo ou no tabuleiro
fazendo dobras.
Em meia-hora o cheiro bom se espalhava pela cozinha
inundando toda a casa
enchendo de paz
e fartura
Sentimento de que se cumpria a vida
áspera e clara
cheia de um grande sol.
De primeiro era assim.
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Lázara Papandrea ( de verde com Leila Barbosa na foto acima) recitou para nós seu poema muito recente ARARIPE, feito em homenagem ao avô. O proprio poema descreve a beleza da imagem que ela tem do avô, uma linda e justa homenagem:
ARARIPE
Lázara Papandrea
Arara.
Ipê.
Meu avô tinha nome
de Ar
Ave
Árvore
E só agora percebo
que suas costas tortas
era das asas que lhe pesava
subir nos galhos da vida!
Explicando, ela acrescentou: primeiro me veio o nome Araripe, e então percebi que eu podia fragmentá-lo em Arara, Ipê, Ar.. pensei em voo, em asas, em galhos, lembrei-me de suas costas arcadas ao fim da vida, da luta imensa pela sobrevivência, da sua vontade férrea de viver e me veio o poema.
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Eu, acabei não apresentando a história do meu poema NEL SILENZIO, inspirado na tela de Piero Dorazio, do acervo do MAMM da UFJF. Não deu tempo, então, faço-o agora:
O poema nasceu a partir da emoção sentida na contemplação do quadro. Seria preciso ver o quadro para entender melhor. Encontrei o quadro exposto no pequeno salão do andar térreo do MAMM e ele me chamou quando entrei para trabalhar. Fui até ele e de repente o quadro me absorveu. Eu não era mais eu, eu era o quadro e fui tomada de grande emoção, como se eu o tivesse pintando pedacinho por pedacinho.
Fiquei ali alguns minutos e depois saí correndo para minha mesa no segundo andar para escrever o que senti e escrevi isto:
A primeira pincelada
corta minha alma
de fora a fora
[ minha primeira sensação foi de dor e depois, quando mergulhei nas cores, senti que era a dor de uma paixão, mais precisamente, a dor de um desejo, e escrevi:]
Meu sangue vermelho
em matizes se desdobra.
Vermelho-laranja
vermelho-vermelho
vermelho-negro-vermelho.
Silêncio do desejo
a tela explode.
[ esta explosão atingia todas as coisas, inclusive o pintor, então, continuei:]
A dor bate na porta
dos homens de hora em hora
- De que matizes queres a vida?
[ porque, o quadro dizia, podemos pintar a vida com as cores que quisermos. Os tons do quadro eram laranja, vermelho e negro (pequenas linhas negras para representar a dor estavam mescladas as outras cores) tudo em quadradinhos justapostos, talvez para lembrar a arrumação das pessoas na vida e isto não é uma coisa simples, é complexa, trabalhosa...:]
Sombras correm atrás das pessoas
pedaços voam
na tela do ser
mãos-movimento
tecem enganos
vermelho-vermelho
- De que cores queres os sonhos?
[ a paixão em seu ápice representada pelo vermelho-vermelho, é engano, sonho, ilusão. Ainda, a repetição do movimento, dizia que não era mais possível ao pintor situar-se, que ele estava sendo levado... ]
Coberto de heras
o corpo descansa
nos quadradinhos justapostos
- De que matizes queres o abismo?
Vermelho-negro-vermelho
Absoluto.
[E não é possível dizer mais nada,aí eu compreendi o título da tela: NEL SILENZIO. Foi uma experiência incrível!!!]
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Para aqueles que não puderam participar, ficam aqui nossas notícias:
-O Rodrigo Barbosa ( filho da Leila) vai lançar em abril um romance pela Editora Record, com coquetel no Fátima Buffet. Com prefácio de Rachel Jardim, o livro promete!
-O livro da Glória está no final da revisão e em breve será publicado. A poesia da Glória é belíssima e estamos ansiosos pelo livro.
-O livro Exercício de olhar de Maria Helena Sleutjes, Ana Másala, Lázara Papandrea, João Manoel e Alessandra Espínola, chegou da gráfica e logo estaremos marcando o lançamento.
-O tema do próximo encontro no dia 07 de abril será finalmente: AMIZADES LITERÁRIAS e vamos convidar a CLEVANE PESSOA para participar do mesmo.
- O HEMOMINAS estará homenageando os poetas da cidade no dia 14 de março, as 15.30h. e convida a todo o grupo para participar do seu Varal de Poesia enviando um poema. O poema pode ser enviado para: ana.ferreira@hemominas.mg.gov.br . Participem e doem sangue, é claro!
-O SESC/JUIZ DE FORA está organizando uma atividade literária em sua Biblioteca, para o dia 18 de abril. Esta atividade inclui palestras, contação de histórias e feira do livro. Quem quiser participar, pode falar comigo, resumindo que tipo de atividade gostaria de apresentar.
- Leila Barbosa presenteou cada participante com dois livros de Embla Rhodes – Viagem ao sol e Aether, romances policiais, que agradecemos.
-Vou ser homenageada no jantar promovido pelo colunista Eduardo Gomes para os destaques femininos de Juiz de Fora, no Victory, no dia 8/03/2012 (isto eu esqueci de falar -rsrs)
- Aproveito agora também para repassar o convite da poeta Daura Barbosa para o evento NOITE DE SONHO E POESIA, que vai acontecer na rua Evaristo Sá Alves, Morro da Glória, as 18.30h, do dia 24/03.2012.
E para finalizar, nosso poema/emblema:
(…) de vez em quando
mexia o café
com uma colher
de POESIA.
Então,
roubava do tempo
o contorno das horas
e viajava no vento
sobre os trigais.
Até o próximo!!!
Entrevista com Maria Helena Sleutjes
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Artigos
Confiram a entrevista que a escritora Clevane Pessoa realizou comigo no link: http://hana-haruko.blogspot.com/2012/02/entrevista-com-maria-helena-sleutjes.html









