NO PORTO

barcos

NO   PORTO

(maria helena sleutjes)

Estou

no porto

dos meus desejos

reprimidos

esperando

um barco

carregado

de luar.

Barcos

partem,

barcos

se aproximam,

barcos

deslizam

na água

azulada

do mar.

Nem canto

nem sereia

apenas areia

mar profundo

e o porto.

Somente Mulheres

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Sempre

Maria Helena Sleutjes

Sempre te chamo

no enternecimento das horas

quando o dia encontra a noite

e saem de braços dados

com a vida.


Sempre te amparo

no dilúvio dos sonhos

ao abrigo das chuvas

no aconchego da brisa

que ameniza as contradições.


Sempre

caminho contigo

no tempo que não finda.

PERCEPÇÃO

Fayga-Ostrower (1)

[ pintura de Fayga Ostrower]

PERCEPÇÃO

maria helena sleutjes

[Para Fayga Ostrower]

Meu olho captou

o seu sentir

sobrepondo-se sobre

as cores.

Todas as borboletas

do mundo

conduziram-me

à sua porta.

Sou a tessitura

de seus pincéis

de seda.

Vento de somar

levezas.

ABSTRAÇÃO – maria helena sleutjes

Fayga Ostrower - gravura
[ Gravura de Fayga Ostrower]

Andar a esmo

pela vida.

Ideais, sonhos

nada…

Ser vazia

de sentimentos e desejos

uma simples nuvem

que balança

sem rumo

sem pátria

sem amigo.

Não ter necessidade de cansar

poder chorar de alegria

ser livre

partir

e não querer voltar.

Levar os sonhos

embalar as fantasias

e morrer lentamente

como morre o dia.

Ser sombra

nada mais

uma sombra apenas

sem forma

na abstração de alguém

que passa.

QUASE

Poesia 20

Tenho a vida repleta

tenho a vida vazia

à bela moda dos poetas.

Á noite

tenho pés de estrelas.

De dia

tenho cabeça de lua.

Quase lua nova

Quase lua minguante

Quase lua cheia.

Desisto da vida

quase todos os dias.

Fujo das horas ensandecidas

pelo espelho das ruas ensolaradas

que fabrico.

Agora, por exemplo,

quase decreto o prolongamento das tardes

até altas madrugadas.

Quase adentro os meandros

dos meus sonhos

para fotografar os meus passos

quase pássaros,

a minha vida

quase voo.