Entrevistas
Postado por Maria Helena Sleutjes
FLORA FIGUEIREDO é uma das poetas mais queridas da atualidade brasileira.
Nasceu em São Paulo. Formou-se tradutora de inglês com certificado de Proeficiência na língua inglesa – Universidade de Michigan. Escreve poemas desde criança. Prêmios: Concurso Veia Poética (1981) da Editora Vertente e Revista Escrita, o II Concurso Mackenzie de Poesia (1982) e o I Concurso Vinicius de Moraes de Poesia (1983). Antologias: Veia Poética, Antologia Poética Vinicius de Moraes, No vôo da palavra e Pastores de Vigilio.
Livros publicados: Florescência (Editora Nova Fronteira, 1987); Calçada de verão (Ed. Nova Fronteira, 1989); Amor a céu aberto (Nova Fronteira, 1992); Estações (Art Editora e WS Editores, 1995); O trem que traz a noite ( Lacerda Editores, 2000); Chão de vento (Geração editorial, , 2005); Limão Rosa ( Editora Novo Século, 2009). Foi vice-presidente da Associação das Jornalistas e Escritoras do Brasil e correspondente do Centre International d´Études Poétiques, na Bélgica. Em outubro de 1999, seus textos foram escolhidos como tema para a peça musical “Flora, Cinco Canções de Amor”, com a qual o maestro Aylton Escobar sagrou-se Hours Concours no II Confronto de Corais Adultos, promovido pela Funarte.
Esta poeta encantadora me concedeu uma entrevista, vejam:
1. Quando acabei de ler CHÃO DE VENTO, fiquei fascinada pela fluidez dos poemas, e também pela qualidade dos mesmos. Não havia um só poema que não me tivesse causado forte impressão. No prazer deste contato, queria pedir que você falasse um pouco de si mesma, da Flora Figueiredo mulher, da Flora Figueiredo poeta, da Flora Figueiredo escritora.
Percebo-me uma mulher mergulhada na vida, permeável, como o poeta precisa ser para que as emoções possam entrar. Delas é que brota a poesia.
O lado mãe e avó é muito intenso e responsável por muitas explosões sentimentais. Vivi meus amores intensamente e deles extraio vários momentos poéticos. Impossível separar a poeta e a mulher.
2. Poeta, contista, cronista, dona de uma linguagem concisa, de grande sutileza verbal, você chegou a declarar que ao compor tenta “beijar a alma do leitor”. Como se dá este entrelace entre você e o leitor já que você ao escrever o convida a segui-la e o atinge justamente no coração?
Acredito que minha comunhão com o leitor vem do meu abraço com o cotidiano e de minha linguagem palpável, ainda que bem elaborada tecnicamente. Fujo das formas que, de tão complexas, deixam o leitor distante da intenção da poesia. A ideia é dar as mãos ao leitor e dividir o instante ao invés de afastá-lo.
3. Sua poesia vem acompanhada de boa dose de romantismo, irreverência, certa sensualidade, e ao mesmo tempo você se mostra picante e doce, apaixonada e contestadora, cúmplice e sedutora. Como você classificaria seu trabalho poético?
Procuro ser fiel aos movimentos naturais da vida. É daí que saem os textos humorados, indignados, românticos, sensuais e até delatores dos desacertos do nosso tempo. Falo das sensações e sentimentos que toda pessoa pode viver e com as quais pode se identificar.
4. Você foi prefaciada por personalidades de renome do mundo literário, como Olavo Drummond, Fábio Lucas, Josué Montello. Recebeu elogios de pessoas renomadas como Ferreira Gullar e Caio Fernando Abreu. Possui vários livros publicados, dentre eles FLORESCÊNCIA (1987), CALÇADA DE VERÃO (1989), AMOR A CÉU ABERTO (1992) e outros. Poderia nos falar um pouco de sua produção literária e de cada um dos seus livros?
Cada livro é um novo filho. Passam pela gestação, nascem com a expectativa que se tem a cada parto e pretende-se que sejam aceitos e amados.
“Florescência” tem o encanto de ser o primogênito e “Limão Rosa” ainda requer os cuidados de um caçula mas, todos são igualmente queridos e me dão alegrias constantes. “Estações” foi feito por encomenda e trata das estações do ano em São Paulo.
Tive a felicidade de ter todos eles adotados pelas redes públicas de
Ensino.
5. CHÃO DE VENTO é um livro primoroso tanto quanto ao conteúdo que é belíssimo, quanto ao trabalho editorial. Tudo nele é perfeito, título, capa, ilustrações, tipo de letra, papel, e o cd com os poemas recitados. O livro se esgotou nas livrarias no Natal passado. Como foi escrever e publicar este livro?
Quando escrevi “ Chão de Vento”, eu estava sem editora, após 20 anos de contrato com a editora Nova Fronteira. O editor Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial, me convidou para lançar um novo título e a partir desse convite escrevi o livro. A edição foi mesmo primorosa, com grande empenho de produção da editora.
Ambos, o editor e eu fomos muito recompensados por essa parceria porque no ano passado recebemos um pedido de 523.000 livros para programas de governo junto às redes de Ensino.
6. Como é a vida cotidiana da escritora Flora Figueiredo? Onde mora? Do que ela mais gosta? O que a diverte? O que a intimida?
Moro em São Paulo, na Capital onde nasci. Sou a única mulher numa família em que só nascem homens e isso me exige muito. Tenho 3 filhos, um neto, um irmão, um sobrinho e dois sobrinhos-netos, além de um companheiro há 17 anos. Minhas tarefas como mulher são, por isso, exacerbadas.
Fiquei órfã muito cedo e carrego comigo essa carência irreparável. Tive que descobrir e enfrentar a vida com minhas próprias mãos, sem amparos, sem afagos. Hoje, sei que esse fato, ainda que penoso, foi altamente enriquecedor.
Não tenho muitos temores. O tempo começa a fazer ameaças mas ainda lido com ele com leveza.
Meus prazeres maiores me são oferecidos pelo convívio familiar, pela literatura, pela música, teatro e cinema. Procuro também contato com a Natureza, quando vou para uma casa de campo no interior de São Paulo. É onde me energizo e onde crio com mais frequência.
Já me intimidei muito diante de uma plateia. Hoje, me sinto bem à vontade pois sinto o público cúmplice de meus textos.
7. Que mensagem você deixaria para os jovens poetas brasileiros, aqueles que ainda fazem da palavra um instrumento de contato com a subjetividade, com a emoção, com as suas expressões de verdades mais profundas?
Aos que são afeitos à poesia, recomendo leitura constante para que fiquem cada vez mais íntimos da linguagem. Ao escrever, que descubram seu próprio estilo, sem receios, com coragem e “ garra” para participar do mundo maravilhoso da literatura.
Nunca se deve jogar fora um trabalho, ainda que ele não agrade de imediato. Depois de algum tempo, ele pode ser visto com outros olhos e tem sempre alguém que se identifica com a ideia.
Meu próximo trabalho será um livro infantil, em prosa.
Ainda não sei qual será a aceitação, mas espero que “ Marita Pirulita” receba o mesmo carinho que seus irmãos mais velhos receberam.
ALGUNS POEMAS DE FLORA FIGUEIREDO
Nó
Flora Figueiredo
Estou perdidamente emaranhada
em seus fios de delícias e doçuras.
Já não encontro o começo da meada,
não sei nem mesmo
se há uma ponta de saída,
ou se a loucura
vai num ritmo crescente
até subjugar a minha vida.
Não importa.
Quero seus nós de seda
cada vez mais cegos e apertados
a me costurar nas malhas e nos pêlos.
Enquanto você me amarra,
permanece atado
na própria trama redonda do novelo.
~~~~~~~~~~~~~~
Retirada
Flora Figueiredo
Respeite o silêncio
a omissão,
a ausência.
É meu movimento de deserção.
Abandonei o posto,
rompi a corda,
desacreditei de tudo.
Cansei de esperar que finalmente um dia,
minha fotografia
fizesse jus ao seu criado-mudo.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
PENSAMENTO
Se tiver que ir, vai.
O que fica para trás, não sendo mentira, não racha, não rompe, não cai.Ninguém tira. Já que vai, segue se depurando pelo trajeto, para desembarcar passado a limpo, sem máscara, sem nada, sem nenhum desafeto. Quando chegar, sobe ao ponto mais alto do lugar, onde a encosta do mundo faz a curva mais pendente. E então acena. De onde estiver, quero enxergar esse momento em que você vai constatar que a vida vale grandemente a pena.
(Flora Figueiredo)
====================================================
ENTREVISTA COM CLEVANE PESSOA
Clevane Pessoa escreve como um rio que não pára e segue seu percurso ao som de uma lira muito particular. Ser sua amiga é um raro prazer e entrevistá-la me proporcionou uma grande alegria.
1. Clevane, a primeira pessoa que me falou sobre você foi a Nina Reis da ABRACE e depois, nos conhecemos pessoalmente naquele jantar da FALASP (Federação das Academias de Letras do Estado de São Paulo) e foi grande a minha empatia pela escritora, poeta, jornalista e o grande ser humano que você é. Queria que você nos falasse primeiro de você, de sua trajetória pessoal.
Bem, Maria Helena, ir a Juiz de Fora receber a Medalha Tiradentes ,da FALASP, teve uma significação a mais, afetiva e memorial, pois foi na Manchester Mineira, que , ainda jovem, iniciei-me na carreira literária e artística. Estudara desenho , adolescente ainda, na SBAAT, com seu presidente, o Pimpinela (Clério de Souza), então, ilustrava as matérias da Gazeta Comercial-onde trabalhei, a bico de pena, muitas vezes, na redação mesmo e às pressas. Nesse jornal, dirigido pelo Sr.Theo Sobrinho, deixei meus textos e fui chamada imediatamente para trabalhar “fazendo de tudo um pouco”. Lá, encontrei um mestre, o irmão dele, jornalista Paulo Lenz, que me repassava revistas literárias-qual “Américas”, que despertou-me para o amor à Latinidade. Hoje, pertenço ao aBrace, do Uruguai, dirigido por Nina Reis, grande poetisa,-que você cita na pergunta e o talentoso poeta e visionário uruguaio Roberto Bianchi – ao IMEL (Instituto Imersão Latina ), onde já fui Vice-Presidente e hoje sou Conselheira, presidido pela jornalista Brenda Mars , tenho o cargo de Diretora Regional do InBrasci (Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais) , na capital mineira, e ainda à Academia Pré Andina de Artes, Cultura y Heráldica, nomeada pelo Conde Thiago de Menezes, que é o seu presidente e preside várias academias, inclusive, fundou a FALASP (Federação das Academias de Letras e Artes de S.Paulo). Mas este entrelace latino americano, começou quando eu era uma jornalista mocinha, e o Instituto de Cultura Americana nomeou-me delegada Ad Honoren , indicada pelo desembargador Vasques Filho. Mantinha então, uma intensa correspondência -naturalmente via Correios- com todos os países de Latino América. Um País representava o outro, eu era também da Associação de Livre Pensadores- ARIEL. E então, eu representava o Uruguai e Portugal. Veja a teia doa destinação preparando-me para o futuro. Descendo de portugueses – pelos sobrenomes dá para ver – e depois, adulta , essa preparação facilitou sobremaneira o que faço.
Muitos perguntam como “dou conta”, mas no fundo, é um mesmo trabalho, em essência, a divulgação, o que mais gosto de fazer, com a luta – o “Bom Combate”- pela PAZ, pela ecologia e pelos menosvalidos.
Pois bem, amiga, fui convidada à mesa de vocês-com Marisa Timponi e Leila Barbosa….
E logo fui sendo “reconhecida e procurada: Marilda Ladeira, Creuza Cavalcanti – que era cunhada do Sr.Theo Sobrinho e em nossa sala teve o amor do segundo marido declarado em um soneto . A decana intelectual, fez a rememória desse momento extraordinário em sua vida, foi muito emocionante para mim, estar nesse jantar promovido pelo Colunista Ricardo Cavalcanti, sobrinho de D.Neuza.
Na mesma festa, estavam os aldravistas de Mariana, que tomaram posse na Academia da Mantiquyeira e também receberam a medalha. A Governadora do InBRasci em MG é Andréia Donadon. Trouxeram seus novos livros, e quando fui à mesa cumprimentá-los, trocamos os filhotes de papel. E foi então que conheci pessoalmente o escritor e poeta Conde Thiago de Menezes, com quem já trocara correspondência – e de quem hoje além de ser revisora, fui prefaciadora de “A verdadeira Luz del Fuego”.
Ao responder parcialmente à sua pergunta, vejo o cuidadoso entrelace que a vida fez de minha carreira, desde eu ler e escrever aos três anos de idade, ser declamadora ensinada por minha mãe, aprender a trovar com meu avô jornalista e poeta paraibano, Luiz Máximo de Araújo, ganhar concursos literários em Juiz de Fora, ilustrar cem trovas daí, em concurso do Programa Contraponto (da Rádio Industrial de juiz de Fora),organizado pelo saudoso José Carlos de Lery Guimarães,ocupar o cargo de Presidente da UBT local, a convite de Luiz Otávio – que foi buscar-me em casa- ligar-me a Portugal e Uruguai , além dos outros países latinos, tudo parece aqueles imprescindíveis ingredientes de um bolo, que são necessários ao mesmo, mas cujo resultado final ,depende de como se batem os ovos, mistura-se a manteiga, unta-se a forma-e do grau de calor do forno.
2. Publicando sempre e participando de diversos eventos literários, membro de muitas Academias de Letras, sua produção é crescente e constante. Livros de poemas, contos infantis, artigos e muito mais. Queremos conhecer esta sua trajetória literária.
Bem, entre os catorze e dezessete anos, fui redatora chefe de “Voz das Mil”, do Colégio Sagrado Coração de Jesus, de Itajubá, das irmãs da Providência, por eleição de colegas. Mas bem antes, aos dez, o primeiro poema que um dia publiquei , foi no Colegio Santa Catarina – e eu sempre tinha de passar minhas redações para um “Livro de Ouro”. Minha colega , Marili (Hermínia Maria de Los Dolores Conde) e eu sempre tínhamos as melhores redações – e eu não tinha rasgos de genialidade, creio que eram textos próprios à minha faixa etária , mas corretamente expressos. Em Itajubá, as redações e dissertações eram colocadas em árvores no pátio. Eu era tímida e passava por elas, para olhar , com o rabo do olho, meus trabalhos. Nunca fui vaidosa,mas experenciava um grande contentamento. Foi lá que a Irmã Elisa chamou prognosticou que eu seria escritora – “poetisa já nasceu sendo, disse-me- a Irmã Santo Agostinho disse-me que eu seria uma artista e criticava-me duramente, contando depois que queria apurar meu estilo precoce e a Irmã Josephina de Gusmão, quando eu era normalista, publicou minha primeira resenha “Sapatilhas e Botinas”: pedira-me que falasse do livro de uma ex-aluna e escrevi uma alegoria, quase premonitória com a Ditadura que viria a partir de 1964. Saiu na Revista da Previdência, em papel couché, escrita aos meus dezesseis anos. Acho que por isso, não sofro de vaidades: tudo parecia natural – e eu sempre achava que não estava tão bom quanto eu gostaria, grande leitora de tudo, de Dostoiewsky a J.G.de Araujo Jorge, com quem me correspondia .
Sempre achavam que eu tinha mais idade e também que era do gênero masculino, dadas algumas tiradas de estilo.
Quando logrei alcançar o primeiro lugar em Concurso de Crônica de Contraponto, com Operária – eu fugira ao óbvio e falara de “Mãe”- operária completa . José Carlos de Lery Guimarães passou um bom tempo convocando o ganhador, o “Sr”.Clevane Pessoa de Araújo, para se apresentar e receber o prêmio. Eu relutava, por haver precedido, na classificação, as talentosas Marilda Ladeira e Cleonice Rainho – de quem tive aulas de Literatura Portuguesa no Vice Consulado de Portugal e me emprestara livros de uma montanha deles, enviada a seu pedido, creio, pela Fundação Kalouste Goubenkian e, a qual hoje divulgo e acompanho pela Internet.
Mas mamãe incentivou-me e lá fui eu, reunindo uma coragem que não sabia ter, num vestido tubinho vermelho, entrevistada ao vivo para a Rádio Industrial via telefone, o que, acredito, preparou-me para outras apresentações por toda a vida.
Tendo estudado Psicologia no CES – concluí em Belo Horizonte, na FUMEC- eu demorei a publicar um livro solo.O primeiro foi Sombras Feitas de Luz – sempre vivi tudo intensamente e por certo, as aulas do Pimpinela na SBAAT influenciaram minha paixão por sombra & luz – pela Editora PLURARTS, o editor, Wagner Torres, poeta que mora na capital Mineira. O segundo, na mesma editora, foi ASAS de ÁGUA-que teve o apoio cultural da COPASA.

3. O impulso de escrever em você é um rio que não pára. Percebe-se toda uma vibração que dá origem as palavras em suas obras. Como acontece o seu processo criativo?
Conforme venho tentando explicar, nas respostas anteriores, tudo em mim acontece naturalmente, porque vivo e sinto intensamente – do entorno às emoções. O fato de ser psicóloga, criou em mim um depositário de interpretações, que poetizo. De ser artista, um modo próprio de descrever, aprender, apreender, criando certos desenhos nos versos, às vezes. Escrevo…escrevo…escrevo…Uma resposta ao fervedouro de filosofias de vida ,vivências , indagações e observações, de mim e do Outro. Roberto Bianchi, que prefaciou meu novo rebento – ainda não lançado no Brasil (e sim nos III Juegos Florales de Montevidéu neste ano e será ainda na feira Internacional do Livro de lá) começou o prefácio dizendo :” “Côn abierto margen de asombro, fruto de su irreverente y novedosa forma de plantear los textos, leemos este libro de Clevane”. Nina Reis, ao apresentar-me, caracteriza minha poética por “não esquivar, não disfarçar, não ocultar”. Roberto afirma que “lo importante es que en ningun momento pierdo el hilo de su razonamiento”. ACHEI QUE ELE FOI FUNDO EM MEU SELF: DESDE MENINA, SEMPRE QUERO TER NAS MÃOS ESSE FIO DA RAZÃO.
Então, Maria Helena,, meu processo criativo jamais é alienado, sempre tem de ter um fio condutor plausível, mesmo quando faço Poesia concreta ou visual
4. Você esteve viajando bastante ultimamente, participando de vários eventos e queríamos que você compatilhasse um pouco conosco destas suas últimas aventuras literárias.
Na verdade, em relação a convites e obrigações acadêmicas, tenho viajado bem menos que gostaria. Confio em amigos que me representam. Ando meio dentro de ostra, meio caracol, apreciando muito o ficar em casa – eu que sempre trabalhei fora e acumulava compromissos, palestras, entrevistas, oficinas, com hospitais onde trabalhava e consultório particular , enquanto mãe, esposa, amiga, hoje premio-me com um ócio produtivo, sem hora programada de acontecer. Mas em abril/maio de 2010 fui a Natal onde acontecia o I EELP (Encontro de Escritores de Língua Portuguesa) e de lá a São José de Mipibu ,onde nasci e fui homenageada em Câmara aberta, os poetas locais indo dizer-me versos, os de Natal, acompanhando-me,etc. Ao chegar, ainda comovida, abri um blog “Árvore entre raízes”, onde publiquei tudo referente a essa viagem memorável. Mas hackeres ou invejosos (que infelizmente estão de plantão, embora eu procure divulgar a tantos) fizeram sumir tudo. Então, de vez em quando, rememoro noutros espaços e textos. Em 2010 e 2011 fui a Taubat , e Itapira. Nesta para posse em academias (Pré-Andina de Artes, Letras e Herásldica, Menotti del Picchia) e PEN Clube de lá. Na primeira, para os títulos de Personalidade e Destaque . mas em outras, amigos me representaram, principalmente Jaak Bosmans, que é o representante da FALASP em BH.
Ontem, deveria estar em Mariana, para o lançamento de LUMENS, uma antologia da ALB, que também outorgou medalhas de mesmo nome. Pronta para ir, recebi um afilhado ao qual não via, com a esposa. No dia 22 de dezembro, a editora Assis/SESC de Uberlândia, MG lança CAMARINHAS, para a qual fui selecionada (dez poemas). Espero estar lá.
O colunista Ricardo Cavalcanti, representante da FALASP aí em JF, deixou um recado no Facebook que eu seria convidada para uma de suas festas especiais para a mulher. Estou aguardando e quando tal acontecer, quero muito conhecer seu grupo de encontros lítero-artísticos-avisarei…

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
ENTREVISTA COM MARCOS MARINHO
A dimensão de um ator se comprova no palco e ver MARCOS MARINHO representando nos coloca diante de um grande artista, capaz de arrancar lágrimas e sorrisos da platéia com a mesma facilidade com que fala de sua vida. Um figura impar! Um ser humano exemplar! Confiram nesta entrevista que ele concedeu ao “veusdemaya.com” e saibam que é um grande prazer dividir estes momentos com vocês.
- Marcos Marinho é um nome já muito conhecido em Juiz de Fora, ator de primeira grandeza, presença no cenário cultural da cidade, professor de teatro, empreendedor. Fico perguntando-me , por que Juiz de Fora? Como foi este seu encontro com o mundo artístico? Fale-nos um pouco da sua história.
Nasci no centro de Juiz de Fora, largo do Cruzeiro, região atrás da catedral católica, alto de morro, ruas inclinadíssimas. A família de minha mãe, com quem tive mais contato na infância, é de operárias de fábrica de tecidos e de estojos para jóias. Meus tios eram marceneiros de primeira, faziam móveis lindos e, claro, brinquedos para as crianças da família. Desde bem pequeno fui levado ao cinema, ao circo, aos programas de rádio, aos bailes de carnaval. Minhas tias tocavam acordeom e cantavam muito. Depois fomos morar em Grama, onde cresci e vivi a maior parte de minha vida. A escola(pública) onde estudei sempre promovia teatro, recitais, concurso de desenhos e poesias. Frequentei todos os circos que apareciam no bairro e, a partir dos 12 anos ajudei a passar filmes no cineminha local. Então, meu encontro com a arte vem daí: da infância, da influência da família, da escola e do bairro. Adolescente, tive oportunidades de conviver e estudar com grandes artistas, fui vizinho e aprendiz do artista plástico Renato Sthelling, conheci o teatro do Grupo Sensorial, aprendi a fazer roteiros e preparar personagens com um padre frances, artista multi meios, que trabalhou em Grama por vários anos. Depois fui estudar no Rio de Janeiro, em Brasilia, em Belo Horizonte.
2. O que é o Mezcla? O que você idealizou quando concebeu esta casa de cultura latino-americana?
O Mezcla é um sonho que alimentei por muitos anos: uma casa onde eu pudesse criar e ensaiar minhas peças teatrais, onde eu pudesse receber colegas das artes pra trocar conhecimentos, onde eu pudesse receber pessoas interessadas em artes. Trabalhei por 11 anos como diretor do Teatro do SESI, quando eles dissolveram as atividades em 2001, apliquei todos os recursos da demissão para montar o Mezcla, em sociedade com minhas irmãs. O tema Latino Americano é uma mistura de gosto estético (tango, bolero, salsa, arte indígena, cores fortes) com opção política (integração do continente, descolonização) e afetividade (na faculdade tive vários colegas de países vizinhos e mais recentemente fiz amigos em Cuba, Bolivia, Argentina, Equador e Chile.
3. Sua última peça – Um dia perfeito ou melhor, Meu dia perfeito (corrigindo ) - é um trabalho sobre a solidão do homem contemporâneo, especialmente do homem urbano. Nela você nos faz rir e chorar e sentir a crise existencial que todos nós carregamos. Conte-nos toda a história deste projeto desde a concepção da idéia, sua evolução, a aceitação do público e sua repercussão nos meios culturais.
Bom, a peça chama MEU DIA PERFEITO… o “meu” é importante porque foi toda escrita comigo e a partir de quem sou. Foi um processo de 14 meses junto com Ricardo Martins que, segundo ele, tinha essa idéia guardada para mim a muito tempo. Nesta época (final de 2007) eu estava saindo de um curso/vivência de palhaço e o Ricardo percebeu o quanto eu estava transtornado e transformado, então me fez as primeiras provocações para eu iniciar a criação de cenas. A partir daí ele foi escrevendo o roteiro e os textos, sempre pensando num professor de línguas estrangeiras que mora na cobertura de um prédio de uma grande cidade. Fizemos uma pré estréia para amigos em dezembro de 2009 e desde este momento percebemos que nossa peça falava de verdade com as pessoas, as reações sempre foram significativas, ainda não tivemos nenhuma platéia indiferente. Da mesma forma, a repercussão tem sido grande, porque já fomos convidados para vários eventos em Juiz de Fora, no Equador e no Chile. Quase todos os dias recebo algum comentário favorável à peça através da internet.
( Como o Senhor M em Meu dia Perfeito)
4. Sei que você teve um convite para apresentar um dos seus trabalhos no Chile recentemente, de vez em quando você vai para o exterior apresentar alguma coisa… Gostaria que você nos falasse dessas experiências fora do país.
Minha primeira experiência profissional fora do Brasil foi em 1995: por causa de um italiano que estava morando em Juiz de Fora e me ofereceu uma bolsa para estudar Commédia Del Arte em Bérgamo. Depois fui a Cuba e, por causa do Teatro Lido, pude fazer uma pesquisa sobre dramaturgia contemporânea, orientado pela diretora do departamento de teatro da Casa de Las Américas. Quando estava montando a peça Andalheiros, fui à Bolivia a convite do COMPA-Trono, um espaço cultural maravilhoso que trabalha também com meninos e jovens moradores de rua. De lá trouxe o livro de onde saíram os relatos para a peça. Na sequência, fui duas vezes à Argentina e mais recentemente ao Equador e ao Chile, já para apresentar MEU DIA PERFEITO. Estamos criando uma rede de artistas de teatro com o nome, ainda provisório de America del Sur sin Fronteras.
5. Você é ator e também professor de teatro. Sei que você trabalha muito com máscaras e com o circo. Qual seria a mensagem essencial da sua atuação nestas duas funções: ator e professor? O que você está querendo colocar em evidência com as máscaras e com o circo?
Sobre a primeira pergunta: sou antes de mais nada, ator. A função de professor vem para atender a uma demanda em Juiz de Fora e encontros de teatro em outras cidades: compartilho com prazer e responsabilidade um pouco do muito que outros já me ensinaram.
As máscaras e o circo são o nascedouro do Teatro, isso eu pude aprender desde cedo, aliás desde criança, através dos pequenos circos que apareciam no meu bairro. O que estou querendo colocar em evidencia com isso é a ancestralidade e a espiritualidade do Teatro, a capacidade e a possibilidade que esta arte tem de nos recolocar diante do mais profundo de nós mesmos.
6. Você parece se dedicar exclusivamente as atividades culturais e sabe-se como isto é difícil em nosso país. Diga-nos dessas dificuldades e fale do seu exercício de esperança em relação a questão cultural da cidade ou do país.
Em termos materiais, realmente é muito difícil, mas como nunca pretendi ficar rico, isso passa a ter menos importância. O interesse pelas artes e o respeito aos artistas em nosso país ainda está longe de ser pelo menos razoável: somos um país muito consumista e individualista, junto com outros fatores isso dificulta a relação do ser humano com a Arte, quer dizer, a relação consigo mesmo e com o coletivo. Meu exercício de esperança é continuar realizando a arte que acredito, sem fazer concessões ao “mercado”, até porque é isso que me deixa vivo, bem vivo, adorando viver e gostando de conhecer pessoas viajando, para longe e para bem perto.
7. Como funciona, de um modo geral, o Mezcla? Como é feita a programação? Como são escolhidos os eventos? Quais são suas expectativas para o ano de 2011 com relação ao espaço?
Desde a inauguração fiz questão de deixar claro quais os principais objetivos do Mezcla, desta forma, os parceiros artistas que se aproximaram e continuam se aproximando trabalham em sintonia com a casa. Sou responsável pela programação, as pessoas me procuram com suas propostas, nós conversamos bastante e assim os agendamentos são feitos. Por outro lado, também procuro contatos e intercâmbios com artistas e intelectuais do Brasil e outros países da América Latina, assim vamos montando nossa grade de atividades. Além disso, conto com a competência de minhas irmãs(minhas sócias) para os trabalhos de infra-estrutura e administração do Espaço. Os eventos são escolhidos levando em conta alguns critérios básicos: arte não massificada/massificante, culturas genuínas do Brasil e outros países Latino Americanos e foco nas artes cênicas e/ou performativas.
8. Que recado você deixaria para os jovens atores?
Estudar muito, frequentar oficinas e pequenos cursos de linguagens variadas, ler muito, mas fugir dos “mais vendidos”, não acreditar em tudo que a imprensa divulga, viajar muito e com o espírito aberto para vivenciar o diferente, o que não está na moda, o que não está no circuito turístico, cultivar o gosto pelo ensaio, pela pesquisa e pelo conhecimento do próprio corpo, assistir o máximo de espetáculos e shows, frequentar museus, cultivar o hábito de comentar as peças teatrais em cartaz(principalmente da cidade onde mora) e convidar insistentemente as pessoas para irem ao teatro… e não esquecer nunca que TEATRO É ARTE EM GRUPO.
( Como Mestre de Cerimônias)
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
ENTREVISTA COM FERNANDO ABRITA
Fernando Abritta é designer e dos melhores. Autor do livro umÁrvore, editado sob a chancela da FUNALFA, trata-se de um poema narrativo que como disse Luiz Ruffato “é lírico, histórico (épico) e dramático.”
Eis a capa do livro e um dos poemas:
No meio do vale
uma árvore
só
beirando a estrada
cercada
de capim
braquiária invasora
a árvore
resiste
umárvore
sentinela plantada
cavalgando ventos
barrando águas
tempestades
florindo
frutificando
semeando
No meio do vale
umárvore
guerreira avançada
ao fundo
nas grotas
nas dobras dos morros
muitas outras
apertadas
disputando sol solo
contidas
por
arame farpado foices e fogo
esperam
olhando o vale
os bois
a erva invasora
cobiçando
Umárvore
parada plantada
enraizada
insiste na florada
cada fruto uma arma
sementes soldados
: largar raízes
teimando tentando dementes insistentes
No meio do vale
umárvore
r existe.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Ele me concedeu esta entrevista que divido com vocês:
1. Fernando, seu livro umÁrvore foi uma grata surpresa para muitos. O Joaquim Branco, no prefácio, disse já conhecer o desenhista-pintor e se surpreendeu com o autor-poeta. Diga-me como é o jornalista-pintor e como é o autor-poeta.
Eu fico agradecido a você por ceder o espaço e pelo carinho com a obra. Mas, não sei me colocar dentro destes personagens – desenhista, pintor, autor, poeta – jornalista então nunca fui. Tenho muita dificuldade para escrever. Faço isso com muito cuidado.
Esse livro, umÁrvore, foi o projeto mais rapidamente executado que eu fiz. Cinco anos pra chegar ao leitor.
Na segunda metade da década de 70, trabalhei com o Joaquim Branco na diagramação e programação visual do Totem, um jornal “nanico” de poesia de vanguarda, depois disso fiz algumas capas para livros. Recente o Joaquim lançou um livro muito bom sobre esse jornal e esse movimento. Ele usa essas palavras – desenhista, pintor e outras – para falar desse tempo. Nessa época, dentro da ditadura, fazíamos experiências com comunicação que a gente dava o nome de poema processo, depois poesia visual que depois deu origem a arte correio. Era uma aventura comunicar alguma verdade naquela época.
2. Seu livro emociona pelo valor ecológico contido e pelo valor poético no tratamento do tema e percebo que nele você também caminhou para a vertente da solidão existencial e para as raízes que nos fincam na terra. Como foi realizado este percurso?
Pury, artista plástico nativo do Cataguarino como eu, me emprestou um livro de Oiliam José, chamado “Marlière, o pacificador”. Um achado. Fala da “pacificação” dos Botocudos Aymorés e do aldeamento dos indígenas no meio do século XIX na região da zona da mata mineira. O livro é raro – uma edição de 1958 e lido por poucos. Havia muitas perguntas na minha cabeça sobre a origem de meu povo e esse livro me deu algumas pistas. Iniciei uma pesquisa com viagens pela região, Atravessei a Serra da Onça umas duas vezes. Conversei com muita gente. Descobri um livro de 1833, Pluto Brasiliensis de Von Eschwege, numa biblioteca pública em São Paulo, com um mapa da região, mostrando os territórios indígenas. Percebi que ninguém tinha idéia do que havia acontecido com o povo que está na nossa origem. Nem mesmo se sabe que existiu gente lá, antes dos europeus e africanos chegarem. Essa gente foi comida por completo. Sumiu dentro de nós tão completamente que não nos damos conta da herança riquíssima que eles nos deixaram.
Depois foi a surpresa de ver a obra aceita pela Lei Murilo Mendes, o que garantiu a edição.
3. Tiago Adão Lara disse que seu livro enamora-nos perdidamente das árvores. Como você chegou a este tema e a esta forma de tratamento do assunto?
As árvores, né? Eu precisava de algum parâmetro para levar o leitor até o tema central. As árvores são os únicos seres vivos e visíveis a nós que foram contemporâneos desses primeiros habitantes. Ninguém sabe quanto vive uma árvore. Então fui resgatando árvores que estiveram em pontos especiais, na beira de caminhos muito antigos, para levar o leitor pela mão até ao fundo da pergunta: quem nos fez o que somos?
4. Eu que tive o prazer de conhecer seu livro antes de ser publicado, fiquei muito admirada com as palavras de sua filha no dia do lançamento, com as performances do Marcos Marinho para alguns dos seus poemas e lendo e relendo seu livro sempre o comparo a uma caixinha de segredos e a cada leitura descubro mais coisas: é o cd; são as ilustrações, as notas explicativas, as divisões dos poemas em cantos. Fale-me do que o livro significa para você.
Eu deveria dizer que minhas filhas são suspeitas para falar de uma obra minha, mas, na verdade eu fiquei muito feliz orgulhoso com as palavras e presença delas. Carolina vive no Rio de Janeiro e Tatiana mora a 2500 km de Juiz de Fora, no Pará. Imagine minha emoção.
Marcos Marinho é um amigo e grande artista: a leitura dele fez o poema crescer muito.
Quando escrevo ou crio alguma coisa não tenho uma idéia concreta do que estou fazendo. Por mais que eu queira racionalizar isso, mapear o processo, fazer um cronograma com as etapas, nunca sei o que estou construindo. O final é sempre uma incógnita. Daí, eu acreditar que o leitor é quem define a obra. Mas há uma coisa em umÁrvore: a busca da origem, a procura do útero que me gerou, nos gerou.
Meu avô materno, o único que eu conheci, um tropeiro, pequeno criador de gado em pastos alugados, homem de muito trabalho, poucas posses e pouquíssimas palavras, havia me falado de uma antepassada dele. Uma mulher cujo nome não sei nem lembro se ele disse. Dizia ele que ela havia sido ”pega a laço”. Na sua voz a palavra “laço” tinha um significado muito concreto: ele construía laços a partir de couro de boi que curtia. E eu imagino ainda essa mulher sendo arrastada do mato para dentro de alguma casa onde teve seu processo “civilizatório”.
Pra mim, esse livro é uma homenagem a essa mulher sem nome.
————-
O livro umÁrvore está à venda na Livraria Arco-Íris (Rua Halfeld, 744 lj 4. Centro – Juiz de Fora – MG – CEP: 36010-003. Telefone: +55 (32) 3215-9194) ou pode ser pedido pelo e-mail abritta.fernando@gmail.com e será enviado por correio.















