Entrevistas
Postado por Maria Helena Sleutjes
ENTREVISTA COM MARCOS MARINHO
A dimensão de um ator se comprova no palco e ver MARCOS MARINHO representando nos coloca diante de um grande artista, capaz de arrancar lágrimas e sorrisos da platéia com a mesma facilidade com que fala de sua vida. Um figura impar! Um ser humano exemplar! Confiram nesta entrevista que ele concedeu ao “veusdemaya.com” e saibam que é um grande prazer dividir estes momentos com vocês.
- Marcos Marinho é um nome já muito conhecido em Juiz de Fora, ator de primeira grandeza, presença no cenário cultural da cidade, professor de teatro, empreendedor. Fico perguntando-me , por que Juiz de Fora? Como foi este seu encontro com o mundo artístico? Fale-nos um pouco da sua história.
Nasci no centro de Juiz de Fora, largo do Cruzeiro, região atrás da catedral católica, alto de morro, ruas inclinadíssimas. A família de minha mãe, com quem tive mais contato na infância, é de operárias de fábrica de tecidos e de estojos para jóias. Meus tios eram marceneiros de primeira, faziam móveis lindos e, claro, brinquedos para as crianças da família. Desde bem pequeno fui levado ao cinema, ao circo, aos programas de rádio, aos bailes de carnaval. Minhas tias tocavam acordeom e cantavam muito. Depois fomos morar em Grama, onde cresci e vivi a maior parte de minha vida. A escola(pública) onde estudei sempre promovia teatro, recitais, concurso de desenhos e poesias. Frequentei todos os circos que apareciam no bairro e, a partir dos 12 anos ajudei a passar filmes no cineminha local. Então, meu encontro com a arte vem daí: da infância, da influência da família, da escola e do bairro. Adolescente, tive oportunidades de conviver e estudar com grandes artistas, fui vizinho e aprendiz do artista plástico Renato Sthelling, conheci o teatro do Grupo Sensorial, aprendi a fazer roteiros e preparar personagens com um padre frances, artista multi meios, que trabalhou em Grama por vários anos. Depois fui estudar no Rio de Janeiro, em Brasilia, em Belo Horizonte.
2. O que é o Mezcla? O que você idealizou quando concebeu esta casa de cultura latino-americana?
O Mezcla é um sonho que alimentei por muitos anos: uma casa onde eu pudesse criar e ensaiar minhas peças teatrais, onde eu pudesse receber colegas das artes pra trocar conhecimentos, onde eu pudesse receber pessoas interessadas em artes. Trabalhei por 11 anos como diretor do Teatro do SESI, quando eles dissolveram as atividades em 2001, apliquei todos os recursos da demissão para montar o Mezcla, em sociedade com minhas irmãs. O tema Latino Americano é uma mistura de gosto estético (tango, bolero, salsa, arte indígena, cores fortes) com opção política (integração do continente, descolonização) e afetividade (na faculdade tive vários colegas de países vizinhos e mais recentemente fiz amigos em Cuba, Bolivia, Argentina, Equador e Chile.
3. Sua última peça – Um dia perfeito ou melhor, Meu dia perfeito (corrigindo ) - é um trabalho sobre a solidão do homem contemporâneo, especialmente do homem urbano. Nela você nos faz rir e chorar e sentir a crise existencial que todos nós carregamos. Conte-nos toda a história deste projeto desde a concepção da idéia, sua evolução, a aceitação do público e sua repercussão nos meios culturais.
Bom, a peça chama MEU DIA PERFEITO… o “meu” é importante porque foi toda escrita comigo e a partir de quem sou. Foi um processo de 14 meses junto com Ricardo Martins que, segundo ele, tinha essa idéia guardada para mim a muito tempo. Nesta época (final de 2007) eu estava saindo de um curso/vivência de palhaço e o Ricardo percebeu o quanto eu estava transtornado e transformado, então me fez as primeiras provocações para eu iniciar a criação de cenas. A partir daí ele foi escrevendo o roteiro e os textos, sempre pensando num professor de línguas estrangeiras que mora na cobertura de um prédio de uma grande cidade. Fizemos uma pré estréia para amigos em dezembro de 2009 e desde este momento percebemos que nossa peça falava de verdade com as pessoas, as reações sempre foram significativas, ainda não tivemos nenhuma platéia indiferente. Da mesma forma, a repercussão tem sido grande, porque já fomos convidados para vários eventos em Juiz de Fora, no Equador e no Chile. Quase todos os dias recebo algum comentário favorável à peça através da internet.
( Como o Senhor M em Meu dia Perfeito)
4. Sei que você teve um convite para apresentar um dos seus trabalhos no Chile recentemente, de vez em quando você vai para o exterior apresentar alguma coisa… Gostaria que você nos falasse dessas experiências fora do país.
Minha primeira experiência profissional fora do Brasil foi em 1995: por causa de um italiano que estava morando em Juiz de Fora e me ofereceu uma bolsa para estudar Commédia Del Arte em Bérgamo. Depois fui a Cuba e, por causa do Teatro Lido, pude fazer uma pesquisa sobre dramaturgia contemporânea, orientado pela diretora do departamento de teatro da Casa de Las Américas. Quando estava montando a peça Andalheiros, fui à Bolivia a convite do COMPA-Trono, um espaço cultural maravilhoso que trabalha também com meninos e jovens moradores de rua. De lá trouxe o livro de onde saíram os relatos para a peça. Na sequência, fui duas vezes à Argentina e mais recentemente ao Equador e ao Chile, já para apresentar MEU DIA PERFEITO. Estamos criando uma rede de artistas de teatro com o nome, ainda provisório de America del Sur sin Fronteras.
5. Você é ator e também professor de teatro. Sei que você trabalha muito com máscaras e com o circo. Qual seria a mensagem essencial da sua atuação nestas duas funções: ator e professor? O que você está querendo colocar em evidência com as máscaras e com o circo?
Sobre a primeira pergunta: sou antes de mais nada, ator. A função de professor vem para atender a uma demanda em Juiz de Fora e encontros de teatro em outras cidades: compartilho com prazer e responsabilidade um pouco do muito que outros já me ensinaram.
As máscaras e o circo são o nascedouro do Teatro, isso eu pude aprender desde cedo, aliás desde criança, através dos pequenos circos que apareciam no meu bairro. O que estou querendo colocar em evidencia com isso é a ancestralidade e a espiritualidade do Teatro, a capacidade e a possibilidade que esta arte tem de nos recolocar diante do mais profundo de nós mesmos.
6. Você parece se dedicar exclusivamente as atividades culturais e sabe-se como isto é difícil em nosso país. Diga-nos dessas dificuldades e fale do seu exercício de esperança em relação a questão cultural da cidade ou do país.
Em termos materiais, realmente é muito difícil, mas como nunca pretendi ficar rico, isso passa a ter menos importância. O interesse pelas artes e o respeito aos artistas em nosso país ainda está longe de ser pelo menos razoável: somos um país muito consumista e individualista, junto com outros fatores isso dificulta a relação do ser humano com a Arte, quer dizer, a relação consigo mesmo e com o coletivo. Meu exercício de esperança é continuar realizando a arte que acredito, sem fazer concessões ao “mercado”, até porque é isso que me deixa vivo, bem vivo, adorando viver e gostando de conhecer pessoas viajando, para longe e para bem perto.
7. Como funciona, de um modo geral, o Mezcla? Como é feita a programação? Como são escolhidos os eventos? Quais são suas expectativas para o ano de 2011 com relação ao espaço?
Desde a inauguração fiz questão de deixar claro quais os principais objetivos do Mezcla, desta forma, os parceiros artistas que se aproximaram e continuam se aproximando trabalham em sintonia com a casa. Sou responsável pela programação, as pessoas me procuram com suas propostas, nós conversamos bastante e assim os agendamentos são feitos. Por outro lado, também procuro contatos e intercâmbios com artistas e intelectuais do Brasil e outros países da América Latina, assim vamos montando nossa grade de atividades. Além disso, conto com a competência de minhas irmãs(minhas sócias) para os trabalhos de infra-estrutura e administração do Espaço. Os eventos são escolhidos levando em conta alguns critérios básicos: arte não massificada/massificante, culturas genuínas do Brasil e outros países Latino Americanos e foco nas artes cênicas e/ou performativas.
8. Que recado você deixaria para os jovens atores?
Estudar muito, frequentar oficinas e pequenos cursos de linguagens variadas, ler muito, mas fugir dos “mais vendidos”, não acreditar em tudo que a imprensa divulga, viajar muito e com o espírito aberto para vivenciar o diferente, o que não está na moda, o que não está no circuito turístico, cultivar o gosto pelo ensaio, pela pesquisa e pelo conhecimento do próprio corpo, assistir o máximo de espetáculos e shows, frequentar museus, cultivar o hábito de comentar as peças teatrais em cartaz(principalmente da cidade onde mora) e convidar insistentemente as pessoas para irem ao teatro… e não esquecer nunca que TEATRO É ARTE EM GRUPO.
( Como Mestre de Cerimônias)
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ENTREVISTA COM FERNANDO ABRITA
Fernando Abritta é designer e dos melhores. Autor do livro umÁrvore, editado sob a chancela da FUNALFA, trata-se de um poema narrativo que como disse Luiz Ruffato “é lírico, histórico (épico) e dramático.”
Eis a capa do livro e um dos poemas:
No meio do vale
uma árvore
só
beirando a estrada
cercada
de capim
braquiária invasora
a árvore
resiste
umárvore
sentinela plantada
cavalgando ventos
barrando águas
tempestades
florindo
frutificando
semeando
No meio do vale
umárvore
guerreira avançada
ao fundo
nas grotas
nas dobras dos morros
muitas outras
apertadas
disputando sol solo
contidas
por
arame farpado foices e fogo
esperam
olhando o vale
os bois
a erva invasora
cobiçando
Umárvore
parada plantada
enraizada
insiste na florada
cada fruto uma arma
sementes soldados
: largar raízes
teimando tentando dementes insistentes
No meio do vale
umárvore
r existe.
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Ele me concedeu esta entrevista que divido com vocês:
1. Fernando, seu livro umÁrvore foi uma grata surpresa para muitos. O Joaquim Branco, no prefácio, disse já conhecer o desenhista-pintor e se surpreendeu com o autor-poeta. Diga-me como é o jornalista-pintor e como é o autor-poeta.
Eu fico agradecido a você por ceder o espaço e pelo carinho com a obra. Mas, não sei me colocar dentro destes personagens – desenhista, pintor, autor, poeta – jornalista então nunca fui. Tenho muita dificuldade para escrever. Faço isso com muito cuidado.
Esse livro, umÁrvore, foi o projeto mais rapidamente executado que eu fiz. Cinco anos pra chegar ao leitor.
Na segunda metade da década de 70, trabalhei com o Joaquim Branco na diagramação e programação visual do Totem, um jornal “nanico” de poesia de vanguarda, depois disso fiz algumas capas para livros. Recente o Joaquim lançou um livro muito bom sobre esse jornal e esse movimento. Ele usa essas palavras – desenhista, pintor e outras – para falar desse tempo. Nessa época, dentro da ditadura, fazíamos experiências com comunicação que a gente dava o nome de poema processo, depois poesia visual que depois deu origem a arte correio. Era uma aventura comunicar alguma verdade naquela época.
2. Seu livro emociona pelo valor ecológico contido e pelo valor poético no tratamento do tema e percebo que nele você também caminhou para a vertente da solidão existencial e para as raízes que nos fincam na terra. Como foi realizado este percurso?
Pury, artista plástico nativo do Cataguarino como eu, me emprestou um livro de Oiliam José, chamado “Marlière, o pacificador”. Um achado. Fala da “pacificação” dos Botocudos Aymorés e do aldeamento dos indígenas no meio do século XIX na região da zona da mata mineira. O livro é raro – uma edição de 1958 e lido por poucos. Havia muitas perguntas na minha cabeça sobre a origem de meu povo e esse livro me deu algumas pistas. Iniciei uma pesquisa com viagens pela região, Atravessei a Serra da Onça umas duas vezes. Conversei com muita gente. Descobri um livro de 1833, Pluto Brasiliensis de Von Eschwege, numa biblioteca pública em São Paulo, com um mapa da região, mostrando os territórios indígenas. Percebi que ninguém tinha idéia do que havia acontecido com o povo que está na nossa origem. Nem mesmo se sabe que existiu gente lá, antes dos europeus e africanos chegarem. Essa gente foi comida por completo. Sumiu dentro de nós tão completamente que não nos damos conta da herança riquíssima que eles nos deixaram.
Depois foi a surpresa de ver a obra aceita pela Lei Murilo Mendes, o que garantiu a edição.
3. Tiago Adão Lara disse que seu livro enamora-nos perdidamente das árvores. Como você chegou a este tema e a esta forma de tratamento do assunto?
As árvores, né? Eu precisava de algum parâmetro para levar o leitor até o tema central. As árvores são os únicos seres vivos e visíveis a nós que foram contemporâneos desses primeiros habitantes. Ninguém sabe quanto vive uma árvore. Então fui resgatando árvores que estiveram em pontos especiais, na beira de caminhos muito antigos, para levar o leitor pela mão até ao fundo da pergunta: quem nos fez o que somos?
4. Eu que tive o prazer de conhecer seu livro antes de ser publicado, fiquei muito admirada com as palavras de sua filha no dia do lançamento, com as performances do Marcos Marinho para alguns dos seus poemas e lendo e relendo seu livro sempre o comparo a uma caixinha de segredos e a cada leitura descubro mais coisas: é o cd; são as ilustrações, as notas explicativas, as divisões dos poemas em cantos. Fale-me do que o livro significa para você.
Eu deveria dizer que minhas filhas são suspeitas para falar de uma obra minha, mas, na verdade eu fiquei muito feliz orgulhoso com as palavras e presença delas. Carolina vive no Rio de Janeiro e Tatiana mora a 2500 km de Juiz de Fora, no Pará. Imagine minha emoção.
Marcos Marinho é um amigo e grande artista: a leitura dele fez o poema crescer muito.
Quando escrevo ou crio alguma coisa não tenho uma idéia concreta do que estou fazendo. Por mais que eu queira racionalizar isso, mapear o processo, fazer um cronograma com as etapas, nunca sei o que estou construindo. O final é sempre uma incógnita. Daí, eu acreditar que o leitor é quem define a obra. Mas há uma coisa em umÁrvore: a busca da origem, a procura do útero que me gerou, nos gerou.
Meu avô materno, o único que eu conheci, um tropeiro, pequeno criador de gado em pastos alugados, homem de muito trabalho, poucas posses e pouquíssimas palavras, havia me falado de uma antepassada dele. Uma mulher cujo nome não sei nem lembro se ele disse. Dizia ele que ela havia sido ”pega a laço”. Na sua voz a palavra “laço” tinha um significado muito concreto: ele construía laços a partir de couro de boi que curtia. E eu imagino ainda essa mulher sendo arrastada do mato para dentro de alguma casa onde teve seu processo “civilizatório”.
Pra mim, esse livro é uma homenagem a essa mulher sem nome.
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O livro umÁrvore está à venda na Livraria Arco-Íris (Rua Halfeld, 744 lj 4. Centro – Juiz de Fora – MG – CEP: 36010-003. Telefone: +55 (32) 3215-9194) ou pode ser pedido pelo e-mail abritta.fernando@gmail.com e será enviado por correio.






