DA VARANDA

Olhava a vida da varanda.
E a varanda era dialeticamente hermética.
Dela, via as casas brancas serpenteando o vale,
subindo e descendo a montanha, grandes e pequenas.
A varanda era seu porto, sua âncora, seu farol, seu caleidoscópio,
seu olho no olho de olhar mandalas,
círculos de flores, berço de cigarras, estação de pássaros,
refúgio de seu jasmim de poeta, enroscado de flores.
A varanda era canção dos ventos nos sinos
que alcançavam estrelas no chão da noite,
lanterninhas brilhando nos postes das ruas
e nas casas adormecidas.
Da varanda vigiava as hortênsias
em azul de crescimento, claro e profundo;
os ramalhetes de rosinhas carmim,
flores de cetim no caramanchão imaginário;
e as lavandas de flores postas
pedindo água para o futuro.
Da varanda alcançava sua melhor parte,
sua vida verde de outono.

TENTATIVAS

 

Olhava fixamente para o vazio tentando  passar para outra esfera de pensamento, outro tempo, um caminho para além do agora. Fixava uma flor por longo tempo na tentativa de ser flor por alguns momentos,  queria sentir-se existindo com  sentido,  com beleza mesmo na imobilidade,  saber sua respiração imperceptível, seu aroma embriagador. Nada. Não era flor. Tentava de novo e agora era pedra, pesada,  cheia de silencioso mistério, observadora. Sentia algo latente como veios de energia crescendo dentro de si, uma inteligência contida… mas não virava pedra, nem rio, nem água, nem semente.  Plantava-se no solo de sua essência – um cisco no olho do tempo, tentando apalpar sua força.

MARIO LENZ

 

Mario tem o olhar compriiido…

desses que caminham com os rios

azulando o fio da estrada,

e a fala maaansa,

quase acetinada,

ornada de palavras de ânimo e coragem

Nas pausas, o sorriso.

Mário tem muitos sorrisos,

todos recém-nascidos

e saídos de sua caixa de encantar pessoas.

Nos braços, carrega consigo muitos frutos,

colhidos no manancial

da verdadeira amizade.

 

[Para você, Mário, com um grande e querido sorriso]

 

COMO UM VELHO PEREGRINO

Como um velho peregrino, uma emoção esmaecida tomou conta dos meus olhos. Eu poderia lhe dizer que visto noites e dias vazios mas não digo. Não digo porque se dissesse tudo estaria terminado.  Olho esta distância insondável e percebo que minha paisagem sem limites é um pequeno arbusto. Será que envelheci? A vida começará a me tirar aos poucos quase tudo? Tenho saudades do amanhã que já não pode mais existir.

GOTA

Persigo-me, na beirada das ruas,

no zig-zag das auto-pistas,

no intervalo das montanhas,

no plenilúnio de julho,

silente e aveludado.

Sei…

Sou ramagem balançando sua sombra.

Ah, este ir-se da vida a cada instante,

este fluxo e refluxo das marés

inscritos no oceano,

este semi-voo para perto,

para longe.

Eu,

peregrino de mim,

sondo-me,

escuto-me,

pressinto-me –

uma gota de orvalho

pendurada numa folha.