Para Alessandra Espínola
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas, Prosa poética
PARA ALESSANDRA ESPÍNOLA
maria helena sleutjes
Entortei algumas palavras para você, Alê, e elas tinham gosto de sal, aquilo que tempera a vida; tinham gosto de chuva, aquilo que fecunda a terra; tinham gosto de manhã de primavera transbordando sempre-vivas, vivas, viva!!
Desabotoei umas palavras para você, e elas se vestiram de miosótis grudadinhos à minha roupa para falar de flores, de sol, de canção de ninar gente grande, de canções de ninar a lua.
Recolhi algumas palavras para você, e elas não cabiam na minha cesta, foram derramadas pelo caminho como estrelas que deslizam pelas noites azuis e infinitas.
Colori algumas palavras para você, com as cores do seu arco-íris interior e a terra ficou mais bonita, mais divertida, mais saudável, mais cheia de vida.
Desarrumei algumas palavras para você, e elas me falaram da beleza que há em algumas criaturas que a gente nunca viu, mas que conhece desde sempre, pessoas que se escreve com P maiúsculo o tempo todo, dessas que ultrapassam qualquer barreira e se lançam num mar de palavras sem limites: você Alê.
ENTARDECE ( prosa poética)
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Prosa poética

ENTARDECE
maria helena sleutjes
A tarde quedou-se assim, num delírio de cores angustiantes.
O dia precisava morrer?
Perguntei-me como quem não quer seguir adiante
mas não tem alternativa.
Um tom metálico, nem negro nem cinza,
de coisa não finda nem ressuscitada,
crescia na distãncia de todas as coisas vivas.
A vida se foi ou ainda está viva?
Quem vê e sente toda esta mistura?
Meus olhos, que pintam enganos na tela da minha mente?
Não confio neles.
Trêmula, minha alma vacila.
Seria ela a criatura misteriosa que dentro de mim conta silenciosamente os pingos de chuva?
Sentimentos amotinados combinam com este quadro escuro.
No tabuleiro de xadrez, bispos e cavaleiros marcham convulsamente sobre a minha sorte.
Perco a partida.
O que poderia tocar-me profundamente agora?
Não ouso mover um músculo.
E a noite desce plácida e serena como se o sentir humano não existisse.
Pergunto-me ao antever de relance a solidão que me espera:
Em que curva do caminho esqueci de desenhar teu vulto?
VISITO-ME
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas, Prosa poética
[fractal DIMENSÃO de Cristine Guadelupe, criado especialmente para o nosso livro FORMAS FRACTAIS ]
Falo, divago
visito-me
como fantasmas visitam casas abandonadas…
Teço dias de chuva
cortinas de algodão cru
flores de jornal
e na leveza de sonhos abissais
consagro a terra aos pardais.
Eles podem ficar com tudo!
Meu olho despertencido,
clica
o bonsai de pitangas sobre a mesa,
quase eloqüente
nesta sala branca.
Olho nos olhos do bibelot de Delft
perguntando pelos rios de outrora.
Busco na imobilidade das poltronas,
abrigo.
Tudo sofre de inanição.
Para conhecer-me
preciso mais que uma vida inteira.
Visito-me…
O MIRANTE DE CARRANCAS – MG.
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas, Prosa poética

O MIRANTE DE CARRANCAS
Em Carrancas (MG), as montanhas são levemente onduladas, o verde dança no azul do céu e esconde as cachoeiras e as grutas. A vida é quietude. No alto do Mirante, o abismo se abre no penhasco que desce uns 50 metros em linha reta, e ao mesmo tempo em que assusta, inspira.
Um grito. O som se propaga, se multiplica. São muitas as falas do abismo. Ouço-as. Perguntas de espanto. Respostas de plenitude. Desnudamento dos sentidos, deslumbramento, medo-encanto.
Uma pedra lançada ecoa no silêncio absoluto. Um pássaro canta, pede socorro. Um pássaro pede abrigo. Um pássaro chama para o vôo. Giramos 180 graus, voamos para o sol poente.
Viver deveria ser apenas isto – descobrir emoções vitalizantes. O sol se reparte em tiras no horizonte, como no quadro de Dorazio – Nel Silenzio. Trinta pessoas, em estado de graça, o contemplam.
GRIS
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Prosa poética
Minha tristeza, meu desencontro, minha forma quebrada de ser, pintou a manhaã de cinza escuro. Havia chuviscos, havia cantos longinquos de maritacas, havia meu olhar deslizando sobre o absurdo. Perguntava-me constantemente de onde vinha a opacidade do meu olhar de agora e respondia atrevida: de dentro, do fundo da alma onde as cortinas balancam e se calam, onde as portas se fecham e passo a ser o que sou - o avesso do avesso do avesso. Caminho sob os chuviscos. No desconforto de mim. Encontro rostos anônimos. Ouço pedaços de conversas. Observo o João de Barro procurando gravetos na areia. Encontro uma sabiá com seu bico de espora. Ela me devora. Tento dizer alguma coisa… Não falo a língua dos pássaros e na língua dos homens todas as coisas já foram ditas, todas as palavras já foram escritas, todos os livros já foram lidos, todos os segredos desvendados. As cascas da árvores, as enigmáticas cascas das árvores sabem do que estou falando. Percebo-me assim, casca. Apanho os chuviscos e caminho pela praça sem deixar vestígios. Meus passos nunca mais deixaram rastros. Pingo colírio nos olhos, para lembrar-me do meu estado humano, se que é isto ainda é possível.

[fractal DIMENSÃO de Cristine Guadelupe,
criado especialmente para o nosso livro FORMAS FRACTAIS ]

