OLHO OBLÍQUO – Alessandra Espínola

“Todas as ruas do mundo
viraram
linhas de se perder
serpenteando os rios do ser.”

(Maria helena Sleutjes)

Te olho de modo oblíquo que é como te mirar o olho em frente num perfil,

te amorosa helena te quero muita maria maria! a vida é centrífuga não fuja pega!

uma hélice girando veloz no centro-mente impossível dos nós tudo cerca corta

atinge atravessa nossa lente de esfinge que interroga e desvela e tem uma coisa que fica:

o bico pinçando adocilações nas árvores das ruas paralelas, asas sibilando janelas

e o vento de viés toca ciranda-coragem na bruta flor do tempo.

Teu olhar me serpenteia penteia meus cabelos de menina,

as tranças uma a uma desfaz e o alívio pousa e voa. fios de cabelos soltos

se perdem e fazem linhas ninhos para memórias plantadas no deserto.

 

Alessandra Espínola

REDE

Limpo as manhãs

que escorrem

dos meus olhos

para encontrar teu sorriso,

rede de prender

passarinhos.

As dores são curvas

angulosas

do começo ao avesso

do querer,

mas o amor é retilíneo

e não muda.

DESEJO

[ No encontro de setembro do  Café Filosófico no MEZCLA ( Juiz de Fora - MG), o ator Tarcísio Mendes me fez a grata surpresa de apresentar este meu poema em meio a poemas de autores consagrados. Nem acreditei no que ouvia e confesso que disse baixinho: eu conheço estes versos... Quero agradecer ao Tarcísio por esta grande emoção]

Ah… Eu não queria ter esses olhos

que vasam a essência

dos seres que amo.

 

Não queria que o silêncio

fosse a minha melhor forma de dizer:

entendi quase tudo.

 

Ah… Como eu queria entender pouco da

vida, do mundo, dos seres…

Como eu queria poder crer

que algo realmente dure.

 

Bando de luzes,

de sons, de cores,

trespassam-me e sei…

passam.

Abraço formas vazias

inutilmente.

 

Ah… Com eu gostaria de ter braços-tentáculos

capazes de reter alguma coisa.

TRANSBORDAMENTO

Naquele ponto cinzento
do viver…
entre o dia e o amanhecer…
na opacidade de todas
as coisas…
no atordoamento
dos sentidos
ensimesmados…
no ponto e vírgula
do entendimento;
o jasmineiro
se encheu de flores.

NATUREZA MORTA

[ Natureza morta de Ivonezyo Ramos]

Misturava café com leite
e tristezas
para tomar sem açucar.
Sorvia aos poucos
sem fazer ruído
olhando atentamente
seu rosto estranho
no fundo da xícara.
Estabelecia
um diálogo mudo
consigo mesma
passando a limpo
velhas histórias
antigas músicas
delírios do sol
nas tardes de vento
e todas as evocações
do tempo longelíneo.
Lá fora,
o mundo indomável
fervilhava flores de outono…
Misturava café com leite
e abandono
e bebia sofregamente.