CONFERÊNCIA
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Artigos
XXII SEMANA DE LETRAS
CENTRO DE ESTUDOS SUPERIORES DE JUIZ DE FORA
05 A 09 de outubro de 2009.
TEMA - POESIA – UM OUTRO ESTADOORDENADOR
Conferencista: Maria Helena Sleutjes
Mediadora: Maria Elizabeth Sachetto – Diretora do CES


Antes de começar, os atores Marcos Marinho e Helenita de Paulo encenaram meus poemas JOGO DE LUCIDEZ; NEL SILENZIO; MENOS; SECRETAMENTE E SOU. Aqui, algumas fotos desta belísisma encenação:





A palestra:

POESIA – UM OUTRO ESTADO ORDENADOR
Quero começar dizendo que vivemos hoje um tempo bom para a poesia. Nem sempre é assim. Mas quando o século XX percebeu através da física quântica que o EXATO e o ABSOLUTO foram retirados do homem, criou-se novamente o espaço em branco, o universo deslizante, muito próximo ao mistério poético.
E a lógica seria esta: se o mundo não me dá respostas, vou à procura delas para contentar meu espírito através de uma porta secreta chamada SUBJETIVIDADE e assim, acesso um outro espaço e passo a vivenciar um outro estado capaz de ordenar meu mundo e ajustá-lo aos meus anseios.
Esta imagem que vocês estão vendo acima, achei muito interessante para representar o poeta ou o estado poético.
Vejam, o ser humano, este ser da classe dos mamíferos, das ordem dos primatas da família dos hominidas, do gênero homem, da espécie sapiens, que aqui no slide é verde, está nu, beijando um beija-flor, possui uma noção de mundo particular, um senso estético só seu, um sentir único mas capaz de o colocar em sintonia com os outros, com muitos talvez.
Então, estamos falando não só de poesia mas de arte onde a poesia também se inclui.
Se examinarmos a poesia desta imagem, pode-se verificar que as flores preponderam. Estariam representando a beleza? O pássaro está livre. Seria a alma? Este ser é verde. Estaria em sintonia com a natureza? Ele está nu. Estaria se mostrando como realmente é? Beija um beija-flor. Possui capacidade afetiva de troca? E muitas outras perguntas poderiam ser feitas.
Mas, deixando de lado esta imagem, ainda poderíamos perguntar:
- Por que a poesia acontece?
A poesia acontece porque somos seres de afetividade intensa e instável. Sorrimos, choramos. Somos amorosos e angustiados. Somos assim…
Acontece também e principalmente, porque embora conheçamos a MORTE não acreditamos nela. esta é que é a verdade.
O poeta vive o tempo todo em perene estado de diálogo com potências criadoras. Trabalha com a negação do tempo mortal. Não o aceita e o devolve ao criador.
E como se pode entender melhor a poesia?
Comecemos pela própria palavra POESIA
A palavra POESIA deriva do termo grego POESIS
que significa ação, ação de reunir mas na relação entre
CONSCIÊNCIA
PALAVRA,
RITMO
E ENTENDIMENTO DE UMA VERDADE.
Martin Heidegger, filósofo alemão, que considerava ser possível construir um projeto pensante de vida através da poesia, diria que este reunir não é apenas um reunir de palavras simplesmente mas, um reunir para relevar, produzindo um sentido superior.
Vamos sentir isto na voz de alguns poetas:

Um poema começou em mim pela simples indicação de um ritmo
que pouco a pouco deu um sentido a si mesmo. Paul Valery

Poesia para tornar o mundo habitável. Ferreira Gullar.

Algo desloca-se de um fundo sem fundo da memória ou do inconsciente. Uma fonte de alumbramentos. Manuel Bandeira
MALLARMÉ, FALANDO SOBRE A SINGULARIDADE DA POESIA, DIZ QUE CADA IMAGEM É SUSTENTADA POR UM SISTEMA DE PENSAMENTO E CADA PENSAMENTO É RIGOROSAMENTE SUSTENTADO POR UM JOGO DE IMAGENS. a GRANDE RIMA É A RIMA DAS IDÉIAS E NÃO DAS PALAVRAS.

Quand je dit “fleur”
qualque chose musicalmente se léve,
l’idée même et suave absente de tout bouquet. Mallarmé.
A fala poética, portanto, alcança uma instância originária, ainda não expressa completamente. Então, o poeta, de forma instantânea o faz, utilizando-se da linguagem.

A poesia, no entanto, acessa tanto variáveis de prazer quanto de dor, variáveis de vida quanto de morte.
Este processo de decifração de enigmas interiores vai traçando sua trajetória nos círculos do sentir que nunca se completam, permitindo que aconteçam muitas vezes, pequenos milagres, iluminações, revelações da partilha de um espaço/estado único, porém comum quando revelado.
Atahualpa Yupanqui diz que a poesia é missão, que todo mundo a sente todos os dias, só que uns escrevem, outros não.
O poeta Carlos Rodolfo Stopa entende que a poesia permeia o universo. Está em toda parte, à nossa disposição, à espera da captura de nosso olho, de nosso sentir.
E O QUE O POETA BUSCA?
Impregnar de permanência a fluida realidade.
O QUE O POETA QUER?
Capturar coisas que estão a fugir de nossas/suas mãos, de nosso/seu entendimento.
Desvendar a alma secreta das coisas para ouvir na conha o “ptyx”, estas vozes secretas de nossos mares interiores.
“PTYX” é uma palavra criada por Mallarmé para o seu famoso poema em “X”. Não tem tradução direta mas evoca um termo grego que significa dobra ou concha. Trata-se de um objeto misterioso criado por ele, que na verdade nunca existiu mas possui uma ressonância individual, tal como a poesia.
Pode-se observar que o homem contemporâneo se lança hoje, quase exclusivamente a construção de um mundo de funções e consumo onde tudo já está pré-estabelecido.
Zaidszajder em 1994 afirmou que o homem pós-moderno se distanciava de si mesmo a medida que o mundo à sua volta se tornava mais turbulento e sua vida mais fragmentada. Heidegger, bem antes de Zaidszajder, denunciou em todos os seus livros a grande inversão de valores no que se refere ao conceito de SUJEITO e OBJETO
A sociedade hoje é formada por seres-objeto.
Na busca desenfreada de auto-asseguramento, o homem diminui a profundidade de seu pensamento e foge da vitalidade criadora.
A ARTE nos devolve a condição de SUJEITOS

Pode-se também entender POESIA como RELAÇÃO. Relação do poeta com o seu discurso. Observem esta relação nos textos abaixos:

As cinco da manhã a angústia veste branco. Vinicius de Morares.

Sossega, coração, contudo!
Dorme!
O sossego não quer razão nem causa
quer só a noite plácida e enorme,
a grande , universal, solene pausa
antes que tudo em tudo se tranforme.
Fernando Pessoa

Aqui me tenho como não conheço
nem me quis
Sem começo nem fim.
Nada lembro
Nem sei.
A luz presente sou apenas
um bicho transparente.
Ferreira Gullar

Pascal tinha em si um abismo se movendo.
Ai,tudo é abismo!
Sonhos, ação, desejo intenso,
Palavra!
E sobre mim, num calafrio, eupenso sentir do medo
o vento as vezes se estendendo.
Baudelaire
Cecília Meireles , a grande artesã da palavra, refletindo sobre a poesia disse:
“pergunto-me se não é de natureza sagrada essa indefinível chama que a poesia dificilmente revela mas está destinada a conter. Esta não será na verdade, o sentido de todas as artes? (…) Não seria um jogo de Deus esse renovar constante de meios para cada um procurar o seu fim?

Será que Orfeu não continua a comover os monstros com seu canto e a atravessar o inferno pelo poder da poesia? Cecília Meireles
Então, o que nos cabe pensar? O que merecemos viver? O que somos capazes de sentir e expressar?
Se o mundo é hoje este oceano infinito, com fluxos variáveis e sem totalização possível, onde tudo é estranhamento, devemos perguntar mais ainda:
- Como reorganizar algum sentido?
- Como alcançar zonas francas de serenidade?
Na poesia as cordas do sentir vibram a música dos universos conectados pelo desejo. Há uma sintonia com as modulações afetivas, provocadas por estas vibrações, uma tolerância que tais afetos inusitados exercem sobre a subjetividade.
Conquista-se um outro estado ordenador.

Este outro estado nada mais é que a captura do movimento simétrico/assimétrico, regular/irregular, simples/complexo, claro/escuro, na verdade, um ícone que se encontra na alma e que nos dá acesso a um outro tempo e outro espaço capaz de ordenar o sentir.

Seria um estado quase matéria, de sedimento, colocado no espaço das percepções. Um complicado processo de organização perceptiva. Talvez, o discurso flexionando-se para apanhar a figura da vida.
Finalmente, preciso dizer que a açõa poética é ao mesmo tempo identidade e estranhamento. Ela também abre uma fenda, uma interrupção na ordem dos sentidos e nos transporta.
Termino aqui com um poema meu, que trata deste OUTRO ESTADO ORDENADOR:

Porque tudo é insuficiente
Invento-te
-Serias Deus?
Este buraco sem fundo
capaz de engolir o mundo
Sou eu?
Sou eu querendo entender meus abismos
Coisas complexas e coisas banais
O efêmero com roupas divinais
O divino com roupas de peregrino.
Sou vulnerável a morte
tanto quando sou vulnerável a vida.
Para velar esperanças idas, páro,
adormeço meus sentidos.
Para celebrar novos começos
fecho a porta
fantasio-me de poeta
[este ser indescritível].

