Do silêncio


[fractal de Cristine Guadelupe]

DO SILÊNCIO

maria helena sleutjes

[ Tu, forma silenciosa, provoca-nos além do pensamento, como a eternidade. Keats]

O silêncio, a insuportável réplica, é o vazio de todas as formas, de todas as vozes, de todo o movimento, é a morte.

O silêncio, a inefável espera, é o preenchimento de todas as formas, de todas as vozes, de todo o movimento, é a vida.

O silêncio é sem dúvida, a mais preenchedora e provocativa das vozes. Essencial para a arte, é a última conquista do artista, sua passagem para adentrar o santuário profundo e desconhecido de si mesmo.

Ouvir a voz do silêncio é compreender que a única direção verdadeira vem de dentro, do recôndito do ser.

O silêncio, esta zona de genuinidade e simplicidade do ser, é sempre alcançada pelos grandes artistas. Por isso o silêncio está sempre rondando a arte. Há na arte uma zona de silêncio semelhante a meditação, que é transcedência, uma espécie de melhoramento do ser. Quando se mergulha de fato no silêncio, é possível tocar a água, sentir o chão, perceber a vibração do firmamento, viver esta experiência sem estar totalmente presente. O ser alcança uma atenção dinâmica, uma percepção capaz de traduzir o sentir com absoluta clareza. É um movimento descondicionado da consciência individual.

E a opção do artista pelo silêncio, é na verdade, uma forma de trasngressão da realidade. Num mundo onde tudo é ruidoso, é esta uma rara transgressão, e uma transgressão que não o fará silencioso. Ao contrário. É aí que arte se legitima. A história da arte nada mais é que uma sucessão de transgressões bem sucedidas, de silêncios que tomaram formas capazes de mudar o estado de sentir dessas pessoas.

Mas o silêncio também atua como elemento de poder, uma posição de força, onde quem a exerce manipula e confunde o acompanhante. Esse então, torna-se o espaço da antiarte, aquela que substitui a intuição pelo acaso. E neste caso, o silêncio é negação, impedimento, anulação, morte sem possibilidade de renovação. E aí, não há arte.

No mar aberto do silêncio não há nada a aperceber, nenhum lugar a ir. O discurso do silêncio é flexível, modelável, adaptativo, sem forma definida mas abarcador de todas as ondas.

O silêncio é a consciência de que os mistérios da vida não podem ser aprisionados pelos orgãos dos sentidos e pela mente, não podem ser aprisionados entre o instante da vida e da morte e não podem ser enclausurados na rede do tempo.

6 Responses to “Do silêncio”

  1. Marcia Medina Says:
    January 28th, 2012 at 12:11

    Aprendi tanto sobre o silêncio com seu texto, Mhelena. Tudo o que você escreve é poesia, reparou? Beijo

  2. Ana Miranda Says:
    January 28th, 2012 at 23:39

    Eu, que falo muito até em pensamento, preciso ouvir, urgentemente, o meu silêncio.

    Ler o seu silêncio, despertou em mim, a vontade de ouvir o meu…

    Belíssimas palavras, aliás, como sempre.

    Obs.: Concordo com a Márcia: “Tudo que você escreve é poesia”.

  3. Ana Miranda Says:
    January 28th, 2012 at 23:43

    Ah, esqueci-me de comentar: viciei-me em visitar sua poesias selecionadas. Adorei a do Murilo mendes.

    Parabéns pelas escolhas, lindas poesias, maravilhosos poetas!!!

  4. Helena Says:
    January 31st, 2012 at 17:38

    Lendo, refletindo e concordando… Perfeito esse “silêncio”!
    Uma definição completa, irretocável e linda!
    É sempre tão bom ler você!
    Um beijo!

  5. Ana Másala Says:
    February 2nd, 2012 at 13:16

    . . .

  6. Mario Lenz Says:
    February 11th, 2012 at 11:53

    Grande barulho você faz, mesmo falando do silêncio. E quer saber? Você nunca vai combinar com silêncio. Beijo do Mário.

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