Para Alessandra Espínola
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas, Prosa poética
PARA ALESSANDRA ESPÍNOLA
maria helena sleutjes
Entortei algumas palavras para você, Alê, e elas tinham gosto de sal, aquilo que tempera a vida; tinham gosto de chuva, aquilo que fecunda a terra; tinham gosto de manhã de primavera transbordando sempre-vivas, vivas, viva!!
Desabotoei umas palavras para você, e elas se vestiram de miosótis grudadinhos à minha roupa para falar de flores, de sol, de canção de ninar gente grande, de canções de ninar a lua.
Recolhi algumas palavras para você, e elas não cabiam na minha cesta, foram derramadas pelo caminho como estrelas que deslizam pelas noites azuis e infinitas.
Colori algumas palavras para você, com as cores do seu arco-íris interior e a terra ficou mais bonita, mais divertida, mais saudável, mais cheia de vida.
Desarrumei algumas palavras para você, e elas me falaram da beleza que há em algumas criaturas que a gente nunca viu, mas que conhece desde sempre, pessoas que se escreve com P maiúsculo o tempo todo, dessas que ultrapassam qualquer barreira e se lançam num mar de palavras sem limites: você Alê.
SIMPLESMENTE
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas

[tela de Emanuel Brito]
SIMPLESMENTE
maria helena sleutjes
Colar a face na terra
[teu rosto]
sentir sua essência
até me transformar
num ser de argila
novamente.
Atravessar descalça
a nascente mais pura
[teu corpo]
até me transformar
num ser aquático
novamente.
Ou apenas,
voar serenamente
sobre o deserto
[tua alma]
ultrapassar o frio
vencer a fome
domar o vento
incinerar o sol ardente
e ousar seguir adiante
[sem você de novo]
simplesmente.
ESTAÇÃO 56
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas
ESTAÇÃO 56
maria helena sleutjes
[ ...as têmporas da romã, as têmporas da maçã, as têmporas da hortelã. As pitangas temporãs. O tempo temporão. Murilo Mendes]
Clamo no deserto
tardes inteiras…
Se você me ouve
saiba que o tempo,
delicada corda,
roubou a minha lira.
Minha voz,
em ecos repartida,
perde-se.
Mesmo assim,
reclamo minha herança:
esta terra desolada
que herdei dos meus
contemporâneos
plena de angústias.
Minha sede…
minha fome enganadora.
Enquanto burilo a alma
a vida salpica-me
o rosto
de terra
arreia lavada
barro
e concreto.
Resisto.
Faço as malas
pego o trem da minha
história
- Para onde?

