RESENHA DE LIVRO

yOGA E CONSCIÊNCIA

RESENHA:  HENRIQUES, A.R.    Yoga e consciência, a filosofia psicológica dos yoga-sutras de Patãnjali. Porto Alegre: Rígel, [s.d]

[Primeira  parte]

Este livro de Antonio Renato Henriques, mestre em filosofia e especialista em arte, é uma raridade porque contém informações de grande valor para o ocidente. Em sua introdução o autor nos diz: “há em nossa época um certo vazio filosófico (…) os fundamentos de nossa civilização cristã ocidental estão em crise, vivemos um tempo de ateísmo, violência e medo (…) o modelo de progresso atual é antihumanista e a destruição total da humanidade está cada  vez mais palpável para cada um de nós.”

Debruçando-se sobre as questões do conhecimento e da consciência, verifica que a consciência, é ciente de tantas coisas e tão pouco ciente de si mesma e assim, nos remete a uma série de questionamentos, dentre eles o mais importante:

- Até que ponto o homem está morto?

Para responder a esta grande questão ele foi estudar os yoga-sutras de Patãnjali. A proposta deste livro, portanto, é refletir sobre o problema da consciência/existência tendo Patãnjali como ponto de partida.

O termo consciência nos remete a idéia de sujeito, alma, vida psicológica, subjetividade, ego, interioridade. No entanto, a consciência não está separada do problema do sujeito e do meio ambiente concreto. Então, a questão seria:

- Até que ponto existe subjetividade e até que ponto esta pode ser objetivada?

- Até onde a tal subjetividade é fruto de relações  físicas (fisiológicas) do homem com seu meio?

O yoga é uma das seis escolas filosóficas indus que aceitam a tradição védica. Os yoga-sutras foram escritos em sânscrito, a mais antiga língua conhecida.  De origem ária, pertence ao grupo das línguas indo-européias. É matriz das atuais línguas indianas, possui aproximações com o persa, o egípcio, o grego, o latim, o germânico e o italiano.

Os yoga-sutras de Patãnjali se constituem na única fonte autorizada do yoga clássico. São textos sintéticos, compostos por afirmações curtas.  Sutra significa “fio-condutor”. É lacônico como um telegrama. Estes sutras são compostos por 195 aforismos, dispostos em 4 livros: o primeiro sobre a concentração da mente; o segundo sobre os meios de realização do ser; o terceiro sobre os poderes do homem; e o quarto sobre o isolamento do espírito.

Nos sutras toda a crença é desprezada para dar lugar à dúvida filosófica.

Patãnjali parece ter sido autor do famoso comentário à gramática de Pánini ( 1ª. e mais completa gramática da antiguidade) e igualmente autor de uma obra de medicina da época. Patãnjali afinal foi aquele que conseguiu formular literalmente, de modo quase perfeito, uma tradição eminentemente prática.

Desta forma, Henriques entende que a linguagem é algo muito importante, algo que faz com que o homem pense e sonhe. E para Henriques, imaginar não é propriamente criar o inexistente, é transformar o real, transmutar o velho em novo.  O velho sempre esteve associado à razão e as estruturas rígidas.  O novo é sempre ousado, é essa loucura de imaginar uma possibilidade outra, uma perspectiva diferente.  E assim, o autor continua num momento de beleza singular:  “quando um pintor, um músico, ou um poeta “cantam” os encantos da natureza ou simplesmente criam puras abstrações o fazem a partir  de uma especial percepção (percepção direta que é mais que intuição) do informe oculto em todas as formas. Ou seja, o artista é um yogue irrealizado, é aquele que teve o vislumbre da verdade e da sublime beleza e captou-as  na aparência do mundo, como quem descobre o cosmos estrelado refletido nas águas de um poço.

O artista equivale a um pássaro que tenta contar aos animais terrestres o que é voar e como se vê a terra do alto.  Durante o vôo, o ego-artista é aquele que atinge, mas não se estabelece (…). A arte é um ato de ser e de expressão. É um ato de amor e paixão. E o amor e a paixão não podem ser totalmente entendidos porque não são racionais. A arte também é um ato psíquico, mental… Mas não é um ato de puro intelecto porque o coração certamente o terá contaminado.  “Em nossos profundos abismos, a arte, é a possibilidade de cume.”

Preocupado  nesta obra, também com a questão do conhecimento, o autor nos lembra que todo o universo está vibrando no conhecimento, e conhecimento é a fonte de tudo o que existe no universo, e tudo o que existe no universo é simplesmente uma vibração.  As coisas aparecem, desaparecem e nos parecem ou não nos parecem segundo nossa visão. Há também a luz que não podemos ver e há o som que não podemos ouvir. Nosso mundo é o mundo criado por nossos sentidos, mente e ego.

Yoga então pode ser considerado a psicologia dos indus, desde a mais remota antiguidade.

Para Jung, o yoga é uma descrição filosófica dos processos psíquicos. Na repressão freudiana, o indivíduo padece frustração e sofre, sente-se castrado em seus desejos. No yoga, não. O desejo é eliminado.

Na psicologia analítica junguiana cada homem ao nascer traz  consigo arquétipos herdados que atuam como disposições organizadoras da vida psíquica. São os sanskaras, impressões mentais inatas que atuam na vida sob a forma de tendências.   O yogue, quando suspende seus sanskaras, suspende também o passado.

Para Patãnjali, os processos mentais são formados por conhecimento correto; conhecimento errôneo; imaginação; sono e memória.  Estes processos funcionam como redemoinhos. Assim,  conhecimento correto se dá através da percepção direta, inferência  e testemunho.  Conhecimento errôneo se dá através do intelecto, dos impulsos e dos desejos. A imaginação é um mundo à parte. As imagens aqui são criações da consciência do indivíduo e quando as imagens e os conceitos ( a palavra) falam, os signos ligam a ciência à poesia. Dá-se a fome de ser. Neste caso, a linguagem faz com que o homem pense ou sonhe, introduza em sua vida clarezas ou vivências obscuras.

O sono  seria um processo mental baseado na experiência da inexistência. O sujeito que sonha seria um sujeito transcendental. Segundo Freud, o sonho é a estrada real para o inconsciente. Já o devaneio, é um movimento próximo a consciência crepuscular, entre a vigília e o sono. É um estado passivo da mente onde nos deixamos levar por livres associações mentais, por idéias do inconsciente e por estranhas sensações.

Quanto à memória, Henriques nos lembra que segundo Freud, só é possível tornar consciente, o que já foi alguma vez percepção consciente.

No homem ocorrem também percepções  sensoriais que vêem do interior – as emoções. Mas, não pode haver emoção sem objeto. Se amo, amo a alguém. Se tenho medo, tenho medo de algo.  Só pode ser lembrado o que passou pelos sentidos e há um tipo de memória para cada sentido.  As impressões podem ser visuais, auditivas, gustativas, olfativas e táteis.

Desde que  privilegiamos as palavras em relação ao problema da memória, podemos reclassificar a memória de muitas formas:  rememorar é presentificar um passado que não mais estava aqui e agora.  Reter é registrar a impressão em nível inconsciente.  Atenção é a fixação de um único objeto no centro consciente, mas a permanência exclusiva de uma idéia existe apenas no êxtase.

Segundo Patãnjali, as modificações que ocorrem na mente são de cinco tipos e podem ser com dor ou sem dor.  O prazer na filosofia yogue traz em seu bojo a dor da ignorância e do apego.  E a busca do prazer nunca se esgota. No prazer o ser humano renova constantemente seus objetivos intencionais e frusta sua intenção.

Os processos mentais seriam, portanto, angustiosos ou neutros.

No processo de evolução humana se observam três instâncias:  homem comum ( completamente mergulhado na ignorância e na angústia); discípulo ( o que mais vive a angústia e ainda não conseguiu superá-la); iogue ( o que superou a angústia).

Estar apto ao yoga é estar angustiado por excelência, por ter perdido toda a esperança, percebendo a dor por trás do prazer. É aquele que não espera mais nada. A existência surge oca, vazia, sem sentido. Tal angústia prepara o desapego.

(continua na segunda parte)

5 Responses to “RESENHA DE LIVRO”

  1. Ana Miranda Says:
    January 24th, 2010 at 20:35

    Uma coisa me assustou na resenha: Por que o ateísmo está colocado ao lado da violência e do medo???
    Qual o problema em ser ateu?
    Terei que fazer outras leituras, esquecendo o enfoque negativo dado ao ateísmo, porque muito do que foi dito aqui, eu concordo.
    Beijos, amore.

  2. Maria helena Sleutjes Says:
    January 24th, 2010 at 21:06

    Ana, ele está descrevendo uma época , poderíamos acrescentar a esta lista uma série de outras características mas se você reparar bem, adiante ,ao explicar os sutras ele diz:
    “Nos sutras toda a crença é desprezada para dar lugar à dúvida filosófica”. O yoga clássico não tem caráter religioso.
    Bjos

  3. Ana Miranda Says:
    January 25th, 2010 at 13:21

    Obrigada pelo esclarecimento.
    Beijos!!!

  4. Deborah Reis Says:
    January 28th, 2010 at 20:34

    O homem foi perdendo o elo consigo, com o sagrado, com a magia de existir. Precisamos sinais, bússulas, faróis que nos iluminem nesta noite escura chamada caos. Quero muito ler a segunda parte. Gostei muito!

  5. lilian reinhardt Says:
    January 30th, 2010 at 21:17

    Preciosa resenha e abordagem em dimensões abrangentes sobre a senda de auto-conhecimento do Yoga. Deixo-lhe o endereço da publicação do livro que lhe interessou por enquanto só encontrada em book on line;http://www.bookrix.com/_title-en-youssef-rzouga-o-livro-de-yoga-poetico. Cumprimentos também pelo belo espaço, bjos

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