CONTINUAÇÃO DA RESENHA
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas
HENRIQUES, A.R. Yoga e consciência: a filosofia psicológica dos yoga-sutras de Pátañjali. Porto Ajegre: Rígel, 1990. ( continuação)
2ª. parte
O apego à vida é a força mais dominante no homem, no entanto, o yogue vence este apego e corta voluntariamente o cordão umbilical com o mundo entregando seu espírito, não o corpo. A iluminação equivale à morte. Embora o yoga não seja uma filosofia niilista, é o que toda a filosofia deveria ser – uma preparação ( não mórbida) para a morte. Para um yogue, saber morrer é saber viver no sentido mais pleno.
No entanto, inúmeros são os obstáculos para se atingir o yoga. Pátañjali enumera 9 falhas de caráter próprias do homem comum que impedem o yoga pelos efeitos dos mesmos sobre a mente:
- Doença – se os sentidos não estão atuando de modo aguçado e perfeito, não se pode dominá-los.
- Apatia – carência de energia, de vitalidade que conduz o indivíduo ao estado de devaneio.
- Dúvida – é o que impede a entrega confiança. Ela paralisa e impede o progresso.
- Negligência – implica em indiferença, falta de motivação, insensibilidade.
- Preguiça - coloca a mente em estado crepuscular, alienado.
- Não cessação – impossibilidade de controlar os desejos sensuais e mundanos
- Percepção errônea – aquele que faz com que se tome um sonho por realidade, o que impede de distinguir o verdadeiro do falso.
- Fracasso em alguma etapa – não conseguir alcançar determinada etapa e manter-se estacionado, sem progresso.
- Instabilidade – é alcançar determinada etapa sem conseguir manter-se nela. Estabelecer-se numa etapa equivale a ter um constante ritmo interno, imutável diante das influências do mundo.
O verdadeiro yoga não leva em consideração um Deus, pois isto implicaria uma distinção entre o ser individual e a divindade. Nos sutras de Pátañjali, Deus é potência, ou seja, conhecimento incondicionado pelo tempo. Assim, ele entende que o problema não é a existência ou não de Deus, o importante é a entrega. Segundo Mircea Eliade, em Pátañjali, Deus é apenas uma hipótese de auxílio à entrega – o último florescimento da consciência individual, e portanto, cada consciência individual é a possibilidade de Deus. E Deus não existe sem o ser.
No yoga, o esforço pela estabilidade da mente e o desapego provocam a estabilidade dos sentidos, a mente, então, sereniza pela benevolência, compaixão, alegria, indiferença em relação à felicidade ou infelicidade, mérito ou demérito.
E então, Henriques, em seus questionamentos freqüentes, pergunta:
- Até que ponto controlar as emoções é algo desumano e oposto à vida?
Pátañjali expressa que existem faculdades paranormais no homem, que são uma extensão dos sentidos e que a prática da meditação as torna ativas. Para ele, a mente pode ser estabilizada quando se medita em vivências interiores, ou seja, em objetos abstratos.
Neste estudo, Henriques nos aponta oito etapas para se alcançar verdadeiramente o yoga:
- Abstinência – superação dos desejos e hábitos, evitando-se assim, todo e qualquer processo de degeneração ( mentira, álcool, drogas, fumo, roubo, possessividade). Quem fala de yoga não fala de abstinência sexual e sim, controle. O controle sexual não visa a castidade e a pureza mas aumentar a potência energética e a concentração mental. O yoga exige também a não perversão do sexo entendendo que toda a perversão nasce da ausência de amor.
- Autodisciplina – a autodisciplina conforme Pátañjali tem por base a pureza, a alegrias, a austeridade, o auto-estudo, a entrega. A pureza mental traz bom humor, fixação da atenção, controle dos sentidos, aptidão para a realização de si. Alimentar-se corretamente é muito importante. A alegria e o contentamento atuam como uma armadura protetora que não permite que o ser sucumba diante de revezes. O contentamento não é a alegria dos desejos satisfeitos, ao contrário, surge do deleite do ser consigo mesmo.
- Controle físico através dos asanas – consiste no aperfeiçoamento do corpo e dos sentidos. A prática da hatha-yoga é recomendada, incluindo os asas (posturas), os bandhas (contrações musculares), os kriyas (técnicas de purificação) e os mudrás ( gestos).
- Controle da força vital - O homem comum não sabe respirar, portanto, não tem controle sobre sua força vital. Pránáyama é a cessação dos movimentos de inspiração e expiração até o controle total da respiração. Desta prática provém o desvanecimento da cobertura de luz, tornando-se a mente apta para a fixação da atenção. Henriques alerta para o fato de que há um vínculo estreito entre a respiração e os estados emocionais e de consciência. Pelo domínio da respiração controlar-se-ia todo o resto e acrescenta: não saber respirar é não saber viver.
- Controle dos sentidos– ato consciente e voluntário de abstração. Através dele, dominamos o desejo, o prazer, a dor, porque a percepção se torna apenas consciência. Quando as emoções perduram transformam-se em sentimentos (amor, ódio, tristeza, etc.). O controle dos sentidos abarca uma gama imensa de fenômenos subjetivos ( sensação, percepção, emoção) o que repercute nas relações do ego com o mundo e consigo mesmo.
- Fixação da atenção - ou confinamento da mente dentro de uma área mental limitada. Sempre que a mente fugir como um cavalo bravio, cabe trazê-la novamente para a posição correta, até que ela se canse e se aquiete imóvel.
- Meditação – Dhyãna ou concentração prolongada é o fluir ininterrupto da consciência sobre o objeto de meditação, é um mergulho na essência do objeto mesmo, provocando um estado de identidade capaz de preparar o samádhi ou a iluminação.
- Iluminação - ou samádhi ou estado de identidade. A palavra samádhi, contém o prefixo “Sam” que dá a idéia de “agrupamento”, e a raiz “dha” que significa “posição estável” e o prefixo verbal “a”, que aponta uma orientação para o interior. Ou seja, samádhi aponta para um indivíduo completamente unido (Sam) em sua totalidade, com uma concentração perfeita e estável (dha), no auge de sua introspecção (a). A palavra samádhi não possui equivalência nos idiomas europeus. Mircea Eliade emprega um neologismo para designá-la: “ênstase”. Muitos tentam reduzir o samádhi a um mero sintoma de esquizofrenia ou hipnose, entretanto, apesar de assemelhar-se à loucura, distingue-se radicalmente da mesma. O yogue não divide sua personalidade, ao contrário, a unifica. ( o louco encontra-se no mar mas não sabe nadar, o yogue encontra-se no mar mas sabe nadar). Enquanto nos estados esquizofrênicos, o mundo ameaça o indivíduo, o mundo do yogue, implica em completa harmonia e poder sobre o mundo, pela lucidez que o yogue alcança, pela expansão da consciência, alargando sua compreensão das coisas e de si mesmo, libertando o indivíduo dos condicionamentos exteriores e subconscientes, o que é o contrário da loucura.
O problema, segundo Henriques, é explicar o que transcende, pois a experiência do samádhi, supõe a superação do intelecto. O yoga, portanto, é samádhi e só através do yoga podemos conhecer o yoga.
No livro, Henriques, descreve os diversos tipos de samádhi para só então, dedicar-se ao conhecimento que trataremos na terceira parte desta resenha.
( continua na parte 3)
3 Responses to “CONTINUAÇÃO DA RESENHA”
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Ana Miranda Says:
January 30th, 2010 at 20:16Eh…eh…eh…
Acho que jamais conseguirei alcançar verdadeiramente o yoga. Apresento alguns dos obstáculos, principalmente a preguiça… e achei dificílimas as 8 etapas… -
Ellen Barbosa Says:
February 1st, 2010 at 17:04Maria Helena,
li sua resenha, as duas partes , e anseio pela terceira. Este entendimento da escritura sagrada dos yogues é um verdadeiro presente. Obrigada, muito obrigada, por estas preciosas informações. -
anderson fabiano Says:
February 6th, 2010 at 20:21lena,
passei pra dizer saudade, pra deixar um beijo e pra não ser deixado.meu carinho,
anderson fabiano

