CONTINUAÇÃO DA RESENHA

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HENRIQUES, A.R.   Yoga e consciência: a filosofia psicológica dos yoga-sutras de Pátañjali. Porto Ajegre: Rígel, 1990. ( continuação)

2ª.  parte

O apego à vida é a força mais dominante no homem, no entanto, o yogue vence este apego e corta voluntariamente o cordão umbilical com o mundo entregando seu espírito, não o corpo.   A iluminação equivale à morte.  Embora o yoga não seja uma filosofia niilista, é o que toda a filosofia deveria ser – uma preparação ( não mórbida) para a morte.  Para um yogue, saber morrer é saber viver no sentido mais pleno.

No entanto, inúmeros são os obstáculos para se atingir o yoga. Pátañjali enumera 9 falhas de caráter próprias do homem comum que impedem o yoga pelos efeitos dos mesmos sobre a mente:

  1. Doença – se os sentidos não estão atuando de modo aguçado e perfeito, não se pode dominá-los.
  2. Apatia – carência de energia, de vitalidade que conduz o indivíduo ao estado de devaneio.
  3. Dúvida – é o que impede a entrega confiança. Ela paralisa e impede o progresso.
  4. Negligência – implica  em indiferença, falta de motivação, insensibilidade.
  5. Preguiça - coloca a mente em estado crepuscular, alienado.
  6. Não cessação – impossibilidade de controlar os desejos sensuais e mundanos
  7. Percepção errônea – aquele que faz com que se tome um sonho por realidade, o que impede de distinguir o verdadeiro do falso.
  8. Fracasso em alguma etapa – não conseguir alcançar determinada etapa e manter-se estacionado, sem progresso.
  9. Instabilidade – é alcançar determinada etapa sem conseguir manter-se nela. Estabelecer-se numa etapa equivale a ter um constante ritmo interno, imutável diante das influências do mundo.

O verdadeiro yoga não leva em consideração um Deus, pois isto implicaria uma distinção entre o ser individual e a divindade. Nos sutras de Pátañjali, Deus é potência, ou seja, conhecimento incondicionado pelo tempo. Assim, ele entende que o problema não é a existência ou não de Deus, o importante é a entrega.  Segundo Mircea Eliade, em Pátañjali, Deus é apenas uma hipótese de auxílio à entrega – o último florescimento da consciência individual, e portanto, cada consciência individual é a possibilidade de Deus. E Deus não existe sem o ser.

No yoga, o esforço pela estabilidade da mente e o desapego provocam a estabilidade dos sentidos, a mente, então, sereniza pela benevolência, compaixão, alegria, indiferença em relação à felicidade ou infelicidade, mérito ou demérito.

E então, Henriques, em seus questionamentos freqüentes, pergunta:

- Até que ponto controlar as emoções é algo desumano e oposto à vida?

Pátañjali expressa que existem faculdades paranormais no homem, que são uma extensão dos sentidos e que a prática da meditação as torna ativas.  Para ele, a mente pode ser estabilizada quando se medita em vivências interiores, ou seja, em objetos abstratos.

Neste estudo, Henriques nos aponta oito etapas  para se alcançar verdadeiramente o yoga:

  1. Abstinência – superação dos desejos e hábitos, evitando-se assim, todo e qualquer processo de degeneração ( mentira, álcool, drogas, fumo, roubo, possessividade). Quem fala de yoga não fala de abstinência sexual e sim, controle. O controle sexual não visa a castidade e a pureza mas aumentar a potência energética e a concentração mental.  O yoga exige também a não perversão do sexo entendendo que toda a perversão nasce da ausência de amor.
  2. Autodisciplina – a autodisciplina conforme Pátañjali tem por base a pureza, a alegrias, a austeridade, o auto-estudo, a entrega.  A pureza mental  traz bom humor, fixação da atenção, controle dos sentidos, aptidão para a realização de si. Alimentar-se corretamente é muito importante. A alegria e o contentamento atuam como uma armadura protetora que não permite que o ser sucumba diante de revezes. O contentamento não é a alegria dos desejos satisfeitos, ao contrário, surge do deleite do ser consigo mesmo.
  3. Controle físico através dos asanas – consiste no aperfeiçoamento do corpo e dos sentidos. A prática da hatha-yoga é recomendada, incluindo os asas (posturas), os bandhas (contrações musculares), os kriyas (técnicas de purificação) e os mudrás ( gestos).
  4. Controle da força vital -  O homem comum não sabe respirar, portanto, não tem controle sobre sua força vital. Pránáyama é a cessação dos movimentos de inspiração e expiração até o controle total da respiração. Desta prática provém o desvanecimento da cobertura de luz, tornando-se a mente apta para a fixação da atenção.  Henriques alerta para o fato de que há um vínculo estreito  entre a respiração e os estados emocionais e de consciência. Pelo domínio da respiração controlar-se-ia todo o resto e acrescenta: não saber respirar é não saber viver.
  5. Controle dos sentidos– ato consciente e voluntário de abstração. Através dele, dominamos o desejo, o prazer, a dor, porque a percepção se torna apenas consciência.  Quando as emoções perduram transformam-se em sentimentos (amor, ódio, tristeza, etc.). O controle  dos sentidos abarca uma gama imensa de fenômenos subjetivos ( sensação, percepção, emoção) o que repercute nas relações do ego com o mundo e consigo mesmo.
  6. Fixação da atenção -  ou confinamento  da mente dentro de uma área  mental limitada.  Sempre que a mente fugir como um cavalo bravio, cabe trazê-la novamente para a posição correta, até que ela se canse e se aquiete imóvel.
  7. Meditação – Dhyãna ou concentração prolongada é o fluir ininterrupto da consciência sobre o objeto de meditação, é um mergulho na essência do objeto mesmo, provocando um estado de identidade capaz de preparar o samádhi ou a iluminação.
  8. Iluminação -  ou samádhi ou estado de identidade. A palavra  samádhi, contém o prefixo “Sam” que dá a idéia de “agrupamento”, e a raiz “dha” que significa “posição estável” e o prefixo verbal “a”, que aponta uma orientação para o interior. Ou seja, samádhi aponta para um indivíduo completamente unido (Sam) em sua totalidade, com uma concentração perfeita e estável (dha), no auge de sua introspecção (a). A palavra samádhi não possui equivalência nos idiomas europeus.  Mircea Eliade emprega um neologismo para designá-la: “ênstase”. Muitos tentam reduzir o samádhi a um mero sintoma de esquizofrenia ou hipnose, entretanto, apesar de assemelhar-se à loucura, distingue-se radicalmente da mesma.   O yogue não divide sua personalidade, ao contrário,  a unifica.  ( o louco encontra-se no mar mas não sabe nadar, o yogue encontra-se no mar mas sabe nadar). Enquanto nos estados esquizofrênicos, o mundo ameaça o indivíduo, o mundo do yogue, implica em completa harmonia e poder sobre o mundo, pela lucidez que o yogue alcança, pela expansão da consciência, alargando sua compreensão das coisas e de si mesmo, libertando o indivíduo dos condicionamentos exteriores e subconscientes, o que é o contrário da loucura.

O problema, segundo Henriques, é explicar o que transcende, pois a experiência do samádhi, supõe a superação do intelecto. O yoga, portanto, é samádhi e só através do yoga podemos conhecer o yoga.

No livro, Henriques, descreve os diversos tipos de samádhi para só então, dedicar-se ao conhecimento que trataremos na terceira parte desta resenha.

( continua na parte 3)

RESENHA DE LIVRO

yOGA E CONSCIÊNCIA

RESENHA:  HENRIQUES, A.R.    Yoga e consciência, a filosofia psicológica dos yoga-sutras de Patãnjali. Porto Alegre: Rígel, [s.d]

[Primeira  parte]

Este livro de Antonio Renato Henriques, mestre em filosofia e especialista em arte, é uma raridade porque contém informações de grande valor para o ocidente. Em sua introdução o autor nos diz: “há em nossa época um certo vazio filosófico (…) os fundamentos de nossa civilização cristã ocidental estão em crise, vivemos um tempo de ateísmo, violência e medo (…) o modelo de progresso atual é antihumanista e a destruição total da humanidade está cada  vez mais palpável para cada um de nós.”

Debruçando-se sobre as questões do conhecimento e da consciência, verifica que a consciência, é ciente de tantas coisas e tão pouco ciente de si mesma e assim, nos remete a uma série de questionamentos, dentre eles o mais importante:

- Até que ponto o homem está morto?

Para responder a esta grande questão ele foi estudar os yoga-sutras de Patãnjali. A proposta deste livro, portanto, é refletir sobre o problema da consciência/existência tendo Patãnjali como ponto de partida.

O termo consciência nos remete a idéia de sujeito, alma, vida psicológica, subjetividade, ego, interioridade. No entanto, a consciência não está separada do problema do sujeito e do meio ambiente concreto. Então, a questão seria:

- Até que ponto existe subjetividade e até que ponto esta pode ser objetivada?

- Até onde a tal subjetividade é fruto de relações  físicas (fisiológicas) do homem com seu meio?

O yoga é uma das seis escolas filosóficas indus que aceitam a tradição védica. Os yoga-sutras foram escritos em sânscrito, a mais antiga língua conhecida.  De origem ária, pertence ao grupo das línguas indo-européias. É matriz das atuais línguas indianas, possui aproximações com o persa, o egípcio, o grego, o latim, o germânico e o italiano.

Os yoga-sutras de Patãnjali se constituem na única fonte autorizada do yoga clássico. São textos sintéticos, compostos por afirmações curtas.  Sutra significa “fio-condutor”. É lacônico como um telegrama. Estes sutras são compostos por 195 aforismos, dispostos em 4 livros: o primeiro sobre a concentração da mente; o segundo sobre os meios de realização do ser; o terceiro sobre os poderes do homem; e o quarto sobre o isolamento do espírito.

Nos sutras toda a crença é desprezada para dar lugar à dúvida filosófica.

Patãnjali parece ter sido autor do famoso comentário à gramática de Pánini ( 1ª. e mais completa gramática da antiguidade) e igualmente autor de uma obra de medicina da época. Patãnjali afinal foi aquele que conseguiu formular literalmente, de modo quase perfeito, uma tradição eminentemente prática.

Desta forma, Henriques entende que a linguagem é algo muito importante, algo que faz com que o homem pense e sonhe. E para Henriques, imaginar não é propriamente criar o inexistente, é transformar o real, transmutar o velho em novo.  O velho sempre esteve associado à razão e as estruturas rígidas.  O novo é sempre ousado, é essa loucura de imaginar uma possibilidade outra, uma perspectiva diferente.  E assim, o autor continua num momento de beleza singular:  “quando um pintor, um músico, ou um poeta “cantam” os encantos da natureza ou simplesmente criam puras abstrações o fazem a partir  de uma especial percepção (percepção direta que é mais que intuição) do informe oculto em todas as formas. Ou seja, o artista é um yogue irrealizado, é aquele que teve o vislumbre da verdade e da sublime beleza e captou-as  na aparência do mundo, como quem descobre o cosmos estrelado refletido nas águas de um poço.

O artista equivale a um pássaro que tenta contar aos animais terrestres o que é voar e como se vê a terra do alto.  Durante o vôo, o ego-artista é aquele que atinge, mas não se estabelece (…). A arte é um ato de ser e de expressão. É um ato de amor e paixão. E o amor e a paixão não podem ser totalmente entendidos porque não são racionais. A arte também é um ato psíquico, mental… Mas não é um ato de puro intelecto porque o coração certamente o terá contaminado.  “Em nossos profundos abismos, a arte, é a possibilidade de cume.”

Preocupado  nesta obra, também com a questão do conhecimento, o autor nos lembra que todo o universo está vibrando no conhecimento, e conhecimento é a fonte de tudo o que existe no universo, e tudo o que existe no universo é simplesmente uma vibração.  As coisas aparecem, desaparecem e nos parecem ou não nos parecem segundo nossa visão. Há também a luz que não podemos ver e há o som que não podemos ouvir. Nosso mundo é o mundo criado por nossos sentidos, mente e ego.

Yoga então pode ser considerado a psicologia dos indus, desde a mais remota antiguidade.

Para Jung, o yoga é uma descrição filosófica dos processos psíquicos. Na repressão freudiana, o indivíduo padece frustração e sofre, sente-se castrado em seus desejos. No yoga, não. O desejo é eliminado.

Na psicologia analítica junguiana cada homem ao nascer traz  consigo arquétipos herdados que atuam como disposições organizadoras da vida psíquica. São os sanskaras, impressões mentais inatas que atuam na vida sob a forma de tendências.   O yogue, quando suspende seus sanskaras, suspende também o passado.

Para Patãnjali, os processos mentais são formados por conhecimento correto; conhecimento errôneo; imaginação; sono e memória.  Estes processos funcionam como redemoinhos. Assim,  conhecimento correto se dá através da percepção direta, inferência  e testemunho.  Conhecimento errôneo se dá através do intelecto, dos impulsos e dos desejos. A imaginação é um mundo à parte. As imagens aqui são criações da consciência do indivíduo e quando as imagens e os conceitos ( a palavra) falam, os signos ligam a ciência à poesia. Dá-se a fome de ser. Neste caso, a linguagem faz com que o homem pense ou sonhe, introduza em sua vida clarezas ou vivências obscuras.

O sono  seria um processo mental baseado na experiência da inexistência. O sujeito que sonha seria um sujeito transcendental. Segundo Freud, o sonho é a estrada real para o inconsciente. Já o devaneio, é um movimento próximo a consciência crepuscular, entre a vigília e o sono. É um estado passivo da mente onde nos deixamos levar por livres associações mentais, por idéias do inconsciente e por estranhas sensações.

Quanto à memória, Henriques nos lembra que segundo Freud, só é possível tornar consciente, o que já foi alguma vez percepção consciente.

No homem ocorrem também percepções  sensoriais que vêem do interior – as emoções. Mas, não pode haver emoção sem objeto. Se amo, amo a alguém. Se tenho medo, tenho medo de algo.  Só pode ser lembrado o que passou pelos sentidos e há um tipo de memória para cada sentido.  As impressões podem ser visuais, auditivas, gustativas, olfativas e táteis.

Desde que  privilegiamos as palavras em relação ao problema da memória, podemos reclassificar a memória de muitas formas:  rememorar é presentificar um passado que não mais estava aqui e agora.  Reter é registrar a impressão em nível inconsciente.  Atenção é a fixação de um único objeto no centro consciente, mas a permanência exclusiva de uma idéia existe apenas no êxtase.

Segundo Patãnjali, as modificações que ocorrem na mente são de cinco tipos e podem ser com dor ou sem dor.  O prazer na filosofia yogue traz em seu bojo a dor da ignorância e do apego.  E a busca do prazer nunca se esgota. No prazer o ser humano renova constantemente seus objetivos intencionais e frusta sua intenção.

Os processos mentais seriam, portanto, angustiosos ou neutros.

No processo de evolução humana se observam três instâncias:  homem comum ( completamente mergulhado na ignorância e na angústia); discípulo ( o que mais vive a angústia e ainda não conseguiu superá-la); iogue ( o que superou a angústia).

Estar apto ao yoga é estar angustiado por excelência, por ter perdido toda a esperança, percebendo a dor por trás do prazer. É aquele que não espera mais nada. A existência surge oca, vazia, sem sentido. Tal angústia prepara o desapego.

(continua na segunda parte)

DIGA

oNÍRICO oRCHIS ii - ANA LUISA KAMINSKI

[ Onírico Orchis II de Ana Luisa Kaminski]

DIGA

maria helena  sleutjes

Diga

que me encontrou

na distância dos teus voos,

vagando secretamente

nas tardes dos meus

versos mudos,

e me recolheu

na noite escura

dos teus passos idos,

e me aninhou nos braços

por muito tempo.

Diga

que deixei de ser

apenas aquele flash

no canto esquerdo

do teu olho.

UMA HISTÓRIA DE MOÇA ALEGRE – por Alessandra Espínola

Doce loucura

maria helena é uma moça que desabotoa as palavras, tira a gravata delas, desarruma de um jeito que fica tudo limpinho e organizado.
maria helena vê borboletas no caminho das palavras, e caça palavras na trilha das borboletas, maria helena escreve vermelho e pinta a vida da cor que quiser, reinventa arco-íris e potes surpresas pra quem quiser, mas não pode só querer tem que juntar desejos na caixinha que ela inventou pra tirar presentes, também ela tira tinta dos olhos, e faz o ar correr só pra ter vento nos cabelos, maria helena tira a sandália quando entra na linguagem, aliás maria helena tira a roupa toda, toma banho dela, se veste de mil palavreados, prega peça nas frases, depois se enrola nos sentidos. faz cachos de pensamentos nos dedos, língua silenciosa que dá voltas nas pessoas, como abraços antigos, nisso a memória falseia as lembranças não tão agradáveis. maria helena não sabe o divino pai nosso, ela ave poesia de todo dia, é uma fé cheia de graça e leveza, porque sabe o quanto pesa a vida.
às vezes, maria helena sente uma sozinhez de palavras, os sentidos alma saem do corpo delas, e tudo fica distante, em nome de maria, amém.
Alessandra Espínola
[ e maria helena pergunta: - Alessandra Espínola, você existe?  Obrigada, querida amiga, por este presente maravilhoso!]

ENCONTRO

EBE3

ENCONTRO

maria helena sleutjes


Perde-se na distância

o dia

que se recorta em tiras

no horizonte.

Todas as cores da vida

se afunilam

e  a noite

pouco a pouco

tece seu velho manto.

Meus olhos

de luar

te procuram.

Fugitivos,

teus olhos,

estrelas da noite,

no mar

mergulham.

Em mim,

um oceano brilha indecifravelmente.

Estás por perto.