GRIS
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Prosa poética
Minha tristeza, meu desencontro, minha forma quebrada de ser, pintou a manhaã de cinza escuro. Havia chuviscos, havia cantos longinquos de maritacas, havia meu olhar deslizando sobre o absurdo. Perguntava-me constantemente de onde vinha a opacidade do meu olhar de agora e respondia atrevida: de dentro, do fundo da alma onde as cortinas balancam e se calam, onde as portas se fecham e passo a ser o que sou - o avesso do avesso do avesso. Caminho sob os chuviscos. No desconforto de mim. Encontro rostos anônimos. Ouço pedaços de conversas. Observo o João de Barro procurando gravetos na areia. Encontro uma sabiá com seu bico de espora. Ela me devora. Tento dizer alguma coisa… Não falo a língua dos pássaros e na língua dos homens todas as coisas já foram ditas, todas as palavras já foram escritas, todos os livros já foram lidos, todos os segredos desvendados. As cascas da árvores, as enigmáticas cascas das árvores sabem do que estou falando. Percebo-me assim, casca. Apanho os chuviscos e caminho pela praça sem deixar vestígios. Meus passos nunca mais deixaram rastros. Pingo colírio nos olhos, para lembrar-me do meu estado humano, se que é isto ainda é possível.

