AVISO
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas
[Azulejaria - Pássaros de Alexandre Mancini]
AVISO
maria helena sleutjes
Poesia
não me visite hoje.
Aquém da tristeza
a vida se equilibra.
Além de mim mesma
a vida prossegue
como um autômato.
Alcanço-a
numa cidade
povoada por pardais.
Ao entardecer eles cantam
descompassadamente
e se revolvem
nos galhos das árvores.
Pardais são pássaros?
Poesia, por favor,
não me visite hoje.
PEDAÇOS VIVOS
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas
[imagem da Internet: http://fotos.sapo.pt/TKsZy7fHLSnb7jjsBLD]
PEDAÇOS VIVOS
maria helena sleutjes
Vi teus olhos
pendidos
das fissuras das rochas,
cravados
nas paredes das encostas,
no tinir do tempo,
pedaços vivos.
Como os girassóis
de Van Gogh
teu sol girou
meu caleidoscópio.
Alguém lembrou
as coordenadas do tempo:
crosta indestrutível.
Agora,
como enganar
minha memória?
Para Alessandra Espínola
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas, Prosa poética
PARA ALESSANDRA ESPÍNOLA
maria helena sleutjes
Entortei algumas palavras para você, Alê, e elas tinham gosto de sal, aquilo que tempera a vida; tinham gosto de chuva, aquilo que fecunda a terra; tinham gosto de manhã de primavera transbordando sempre-vivas, vivas, viva!!
Desabotoei umas palavras para você, e elas se vestiram de miosótis grudadinhos à minha roupa para falar de flores, de sol, de canção de ninar gente grande, de canções de ninar a lua.
Recolhi algumas palavras para você, e elas não cabiam na minha cesta, foram derramadas pelo caminho como estrelas que deslizam pelas noites azuis e infinitas.
Colori algumas palavras para você, com as cores do seu arco-íris interior e a terra ficou mais bonita, mais divertida, mais saudável, mais cheia de vida.
Desarrumei algumas palavras para você, e elas me falaram da beleza que há em algumas criaturas que a gente nunca viu, mas que conhece desde sempre, pessoas que se escreve com P maiúsculo o tempo todo, dessas que ultrapassam qualquer barreira e se lançam num mar de palavras sem limites: você Alê.
SIMPLESMENTE
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas

[tela de Emanuel Brito]
SIMPLESMENTE
maria helena sleutjes
Colar a face na terra
[teu rosto]
sentir sua essência
até me transformar
num ser de argila
novamente.
Atravessar descalça
a nascente mais pura
[teu corpo]
até me transformar
num ser aquático
novamente.
Ou apenas,
voar serenamente
sobre o deserto
[tua alma]
ultrapassar o frio
vencer a fome
domar o vento
incinerar o sol ardente
e ousar seguir adiante
[sem você de novo]
simplesmente.
ESTAÇÃO 56
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas
ESTAÇÃO 56
maria helena sleutjes
[ ...as têmporas da romã, as têmporas da maçã, as têmporas da hortelã. As pitangas temporãs. O tempo temporão. Murilo Mendes]
Clamo no deserto
tardes inteiras…
Se você me ouve
saiba que o tempo,
delicada corda,
roubou a minha lira.
Minha voz,
em ecos repartida,
perde-se.
Mesmo assim,
reclamo minha herança:
esta terra desolada
que herdei dos meus
contemporâneos
plena de angústias.
Minha sede…
minha fome enganadora.
Enquanto burilo a alma
a vida salpica-me
o rosto
de terra
arreia lavada
barro
e concreto.
Resisto.
Faço as malas
pego o trem da minha
história
- Para onde?



