AVISO

pássaros de Alexandre Mancini

[Azulejaria - Pássaros de Alexandre Mancini]

AVISO

maria helena sleutjes

Poesia

não me visite hoje.

Aquém da tristeza

a vida se equilibra.

Além de mim mesma

a vida prossegue

como um autômato.

Alcanço-a

numa cidade

povoada por pardais.

Ao entardecer eles cantam

descompassadamente

e se revolvem

nos galhos das árvores.

Pardais são pássaros?

Poesia, por favor,

não me visite hoje.

PEDAÇOS VIVOS

(Imagem JPEG, 450x338 pixéis)

[imagem da Internet: http://fotos.sapo.pt/TKsZy7fHLSnb7jjsBLD]

PEDAÇOS  VIVOS


maria helena sleutjes

Vi teus olhos

pendidos

das fissuras das rochas,

cravados

nas paredes das encostas,

no tinir do tempo,

pedaços vivos.

Como os girassóis

de Van Gogh

teu sol girou

meu caleidoscópio.

Alguém lembrou

as coordenadas do tempo:

crosta indestrutível.

Agora,

como enganar

minha memória?

Para Alessandra Espínola

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PARA  ALESSANDRA ESPÍNOLA

maria helena sleutjes


Entortei algumas palavras para você, Alê, e elas tinham gosto de sal, aquilo que tempera a vida; tinham gosto de chuva, aquilo que fecunda a terra; tinham gosto de manhã de primavera transbordando sempre-vivas, vivas, viva!!

Desabotoei umas palavras para você,  e elas se vestiram de miosótis grudadinhos à minha roupa para falar de flores, de sol, de canção de ninar gente grande, de canções de ninar a lua.

Recolhi algumas palavras para você, e elas não cabiam na minha cesta, foram derramadas pelo caminho como estrelas que deslizam pelas noites azuis e infinitas.

Colori algumas palavras para você, com as cores do seu arco-íris interior e a terra ficou mais bonita, mais divertida, mais saudável, mais cheia de vida.

Desarrumei algumas palavras para você,  e elas me falaram da beleza que há em algumas criaturas que a gente nunca viu, mas que conhece desde sempre, pessoas que se escreve com P maiúsculo o tempo todo, dessas que ultrapassam qualquer barreira e se lançam num mar de palavras sem limites: você Alê.

SIMPLESMENTE

Vasos de Emanuel Brito

[tela de Emanuel Brito]

SIMPLESMENTE

maria helena sleutjes

Colar a face na terra

[teu rosto]

sentir sua essência

até me transformar

num ser de argila

novamente.

Atravessar descalça

a nascente mais pura

[teu corpo]

até me transformar

num ser aquático

novamente.

Ou apenas,

voar serenamente

sobre o deserto

[tua alma]

ultrapassar o frio

vencer a fome

domar o vento

incinerar o sol ardente

e ousar seguir adiante

[sem você de novo]

simplesmente.

ESTAÇÃO 56

vermelho henry

ESTAÇÃO  56

maria helena sleutjes

[ ...as têmporas da romã, as têmporas da maçã, as têmporas da hortelã.
  As pitangas temporãs. O tempo temporão.   Murilo Mendes]

Clamo no deserto

tardes inteiras…

Se você me ouve

saiba que o tempo,

delicada corda,

roubou a minha lira.

Minha voz,

em ecos repartida,

perde-se.

Mesmo assim,

reclamo minha herança:

esta terra desolada

que herdei dos meus

contemporâneos

plena de angústias.

Minha sede…

minha fome enganadora.

Enquanto burilo a alma

a vida salpica-me

o rosto

de terra

arreia lavada

barro

e concreto.

Resisto.

Faço as malas

pego o trem da minha

história

- Para onde?