BAZZO, E.F. Mendigos: párias ou heróis da cultura?
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Resenhas de livros
RESENHA DO LIVRO:
BAZZO, E.F. Mendigos: párias ou heróis da cultura? Brasília: LGE, 2010. 203p.
Ao que me parece este é o mais maldito de todos os livros do escritor Ezio Flavio Bazzo. Este livro desafia a lei da gravidade e você tem que estar com pelo menos um pé no futuro para não virar de cabeça para baixo. Mestre em criar perplexidades através de seus textos, Bazzo parece ter escolhido este tema com a intenção de demonstrar a liberdade que o homem comum não tem, nunca teve, nem supõe existir ou ousa almejar.
Este livro avançou no tempo, como todos os livros deste autor, de forma que sua compreensão exige uma visão mais abrangente do ser humano e da dualidade que o acompanha e que pode fazer dele um acolhido ou excluído, um astro ou um verme, um pária ou um herói e ainda assim, isto não é o que mais importa, o que genialmente o autor demonstra, pois ainda assim, o homem não deixa de ser o que é.
Bazzo inicia seu livro apresentado a nudez da mendicância através de pensamentos de três grandes escritores: Cioran, escritor e filósofo romeno/francês que tinha como axioma a “inconveniência da existência”; Jean Genet, o controvertido escritor francês autor de “O balcão”, e o grande poeta alemão Holderlin, o poeta preferido de Heidegger, cuja lírica sintetiza o espírito da Grécia Antiga.
Para transitar neste universo, o autor saiu fotografando os mendigos pelo mundo afora. Estas fotos que falam por si mesmas permeiam a narrativa juntamente do relato das viagens que empreendeu nesta jornada, episódios de sua passagem por várias cidades da Itália, Grécia, Egito, Israel, Turquia… E fotografando os mendigos, vai aprofundando-se na trama de chegar o mais perto possível deste mundo que baniu as tradições, os dogmas, os ensinamentos, os códigos, a civilidade. Deste mundo que está à mercê de sua própria sorte ou é de vez em quando dizimado pelo poder constituído. Deste mundo grandemente rejeitado e por isto mesmo invisível e Bazzo é brilhante quando fala desta invisibilidade, onde seus adeptos parecem não existir, como fatos episódicos.
No capítulo chamado “Trechos Alheios”, o autor elenca autores consagrados e algumas de suas falas sobre o assunto. Aqui, apenas uma pitada de alguns: Henry Miller, (Nascer na rua significa ser livre), Shakespeare no seu endiabrado Timon de Atenas (Tudo é obliquo, nada está a nível na nossa maldita natureza senão a infâmia manifesta); e o Mendigo voluntário de Nietzsche, do seu “Assim falou Zaratrusta”, obra que dilacera as crenças, os ídolos e analisa toda a gênese da culpa, além de tantos outros.
Ézio Bazzo encerra seu livro com 65 aforismos sobre o assunto.
Estes arranjos produzidos pelo autor para explorar o tema tornam o livro um ensaio incomum. Coloque incomum nisto!
Mendigos, quem são? Eles ou nós? Párias ou Heróis? Eles ou nós? Nunca saberemos. Existir como um nada é algo a que não estamos acostumados nem em pensamento. Então, o livro assusta e conquista, porque afinal, Bazzo está falando de nós – seres humanos – da forma mais escancarada que se pode imaginar.
Maria Helena Sleutjes
TODA MOVIMENTO
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas
TODA MOVIMENTO
maria helena sleutjes
[ Para Ana Miranda com especial carinho]
Ela era toda movimento.
Sorria com os olhos
com as mãos
com a boca
e falava
defendendo todas as causas
a causa dos sem terra
dos sem teto
dos sem coração
e dos sem juízo.
Corria de madrugada
com o vento cortando seu rosto
e seus olhos engolindo
as nuvens baixas.
Era valente mulher/menina
escrevendo sobre a vida
de cada dia
e dançando
com sua saia rodada
e suas sandálias
de prata.
AUSÊNCIA
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas
AUSÊNCIA
maria helena sleutjes
A tarde está paradisíaca
e meus olhos esticam
a visão do infinito.
Onde estás?
Inventei-te?
Certamente se existisses
estarias aqui
neste momento
bebendo luas
abrindo a porta
e ganhando a rua.
ARCA DO DESEJO
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas
ARCA DO DESEJO
maria helena sleutjes
Guardo um amor antigo
velho como a vida.
Guardo conchinhas do mar
de um sorriso
e o barulho do oceano
numa grande concha
que vive murmurando:
- Até quandooo?
Guardo o mistério
insondável
de ir ganhando
e ir perdendo
todas as coisas
tipo – sapatos, roupas
e a juventude
[que o coração não me ouça].
Guardo um caleidoscópio
para os dias de chuva
e para as horas preciosas
de fazer coisa nenhuma.
No ventre da noite
guardo todos os meus
sonhos
tipo — ansia interminável
do teu abraço infinito.
À sete chaves
guardo o sabor do teu beijo
nesta areia
indecifrável
do desejo…
DELICATTA V na Bienal de São Paulo
Postado por Maria Helena Sleutjes | Em Poemas
Estou participando do PROJETO DELICATTA V – cujo lançamento será nos dias 14 e 15 de agosto em São Paulo. Vejam abaixo o CONVITE para os eventos.





